Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial

Imagens de tecidos têxteis esgarçados, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Este post apresenta a ideia / intuição de adensamento produtivo e de esgarçamento do tecido industrial das cadeias produtivas. Estes assuntos serão temas do Blog Valor Adicionado nos próximos meses.

Um segmento industrial está conectado, direta e indiretamente, com diversos segmentos produtivos por meio das relações de compras e vendas de matérias-primas, partes, peças, acessórios, componentes e tecnologias. Desse modo, cada segmento está vinculado a uma rede de fornecedores e subfornecedores entrelaçados entre si. Quanto mais longa a cadeia de fabricação de um produto – por exemplo, um automóvel – maior e mais densa será a teia de ligações intersetoriais. Essa rede produtiva é chamada pelos economistas de tecido industrial ou malha manufatureira. Utiliza-se neste trabalho o termo esgarçamento da indústria têxtil para transmitir a ideia de perda de densidade produtiva. Em outras palavras, se os tecidos têxteis não são usados adequadamente, com o tempo se desfiam e se desintegram, podendo inclusive causar buracos e rompimentos. Nessa situação, o tecido encontra-se esgarçado como ilustrado nas imagens acima.

Num tecido industrial adensado, os produtores domésticos comercializam a maioria dos insumos e componentes entre eles, mantendo, dessa forma, ligações intersetoriais densas. Ao crescer a demanda por um produto, desencadeia-se uma produção adicional de segmentos a ele conectados na rede produtiva, aumentando também o emprego, a massa salarial, o desenvolvimento tecnológico e a arrecadação tributária.

Além da demanda derivada decorrente das interdependências da malha produtiva, na medida em que os segmentos industriais vão se adensando eles geram: i) economias externas a la Marshall para outros segmentos, isto é, transbordamentos e ganhos sinérgicos em termos de tecnologia, mão de obra qualificada, infraestrutura logística e fornecedores especializados; ii) investimentos complementares a la Hirschman; e iii) reduz os custos de produção de produtos novos – processo de descoberta de custos de Hausmann e Rodrik – e propicia a diversificação produtiva. Logo, o esgarçamento dos segmentos industriais provoca efeitos contrários aos mencionados, além da diminuição dos encadeamentos intersetoriais.

Assim, quando se importa a maioria dos insumos e componentes, a rede produtiva fica rarefeita, esburacada ou oca como os tecidos têxteis esgarçados. Uma indústria maquiladora é um exemplo clássico dessa situação, na qual se importam praticamente todos os insumos e componentes comercializáveis, gerando emprego de montagem com salários baixos e pouca contribuição científica e tecnológica para o sistema nacional de inovação.

Há de se diferenciar baixo adensamento produtivo em estágios iniciais de industrialização daquele de economias industrializadas. De um lado, nos estágios iniciais as importações são essenciais para movimentar as plantas industriais recém-instaladas. O mesmo ocorre com a produção de aviões pela Embraer. Apesar de o Brasil produzir aviões há décadas, ele não conseguiu avançar na produção dos componentes principais como turbinas e aviônica. Dessa maneira, as importações podem gerar a condição para se ter um parque industrial. Nesse caso, as importações complementam a produção industrial por incorporar tecnologias de última geração, contribuindo para elevar a competitividade das exportações domésticas. Por outro lado, em economias industrializadas, quando um segmento produtivo muito adensado torna-se rarefeito significa que o tecido industrial deste segmento sofreu um processo esgarçamento, que pode levá-lo à desindustrialização absoluta.

Vale ressaltar que os avanços no adensamento produtivo ocasionaram industrialização em economias retardatárias ao longo dos séculos XIX e XX. O processo inverso, de retrocesso do adensamento em grau intenso pode esgarçar substantivamente o tecido produtivo e ocasionar desindustrialização relativa ou absoluta.

Os termos desadensamento produtivo, rarefação, esvaziamento, desarticulação, fragilização e desintegração, que são largamente utilizados na literatura, possuem o mesmo sentido de esgarçamento. Gosto do termo esgarçamento por ele transmitir a ideia do que vem ocorrendo em algumas cadeias produtivas brasileiras que são relevantes em termos de mão de obra qualifica e desenvolvimento tecnológico.

O adensamento produtivo na globalização atual

Antes da globalização do comércio internacional ganhar grande dimensão, isto é, antes de 1980, adensar as cadeias produtivas era visto como sucesso pelos formuladores de política. No entanto, essa visão mudou, pois hoje o comércio internacional representa parcela relevante da demanda de muitos países.

Atualmente, possuir níveis moderados ou mesmo baixos de adensamento produtivo em alguns segmentos industriais não é visto como fracasso se o país se especializar para exportar. Ou seja, a perda de densidade produtiva é compensada com aumento da produção direcionada às exportações. Assim, por um lado, o país perde capacidade manufatureira com o aumento da importação de insumos intermediários, mas, por outro lado, ganha com o aumento das exportações de produtos acabados. A Alemanha faz isso muito bem, importa bastante insumos e componentes e exporta bastante produtos acabados. No Brasil, raros casos seguem essa dinâmica, sendo a Embraer o caso bem-sucedido mais mencionado.

O capítulo 3 do estudo aplicado ao Brasil mostra que a perda de densidade produtiva em setores de alta e média-alta tecnologia não está sendo compensada com exportações. Portanto, o Brasil não se insere bem nas cadeias globais de valor, pois importa insumos intermediários para produzir produtos acabados comercializados majoritariamente no mercado interno. O país não superou o modelo de industrialização voltado para dentro, porém atualmente com maior conteúdo importado. Voltarei a esse assunto em alguns posts nos próximos meses.

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O assunto deste post foi tema de 2 reportagens do Jornal Valor Econômico:

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Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Productive densification and productive hollowing-out process

Título en español: Proceso de densificación productiva y vaciado del tejido industrial

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Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

Abertura comercial de Bolsonaro: custos altos e benefícios duvidosos?

A abertura comercial é um tema que sempre frequenta o noticiário brasileiro. Recentemente, tem pipocado notícias de uma nova abertura comercial, por meio da redução unilateral de tarifas de importação, a ser implementada no início do governo Bolsonaro. As informações vão na direção de uma abertura unilateral, universal e rápida, como a que ocorreu, no Brasil, no início da década de 1990. Mas qual seriam os impactos da abertura comercial hoje?

            Os argumentos favoráveis à abertura comercial se acumulam:

  1. Diminuição dos preços dos produtos, em especial de manufaturados, gerando benefícios aos consumidores (sobretudo de menor renda) e empresas produtivas.
  2. Aumento na variedade e na qualidade dos insumos intermediários importados.
  3. Aumento nas importações de bens de capital mais modernos.
  4. Aumento da concorrência, que induz os empresários a serem mais competitivos.
  5. Aumento na produtividade devido aos quatro últimos pontos.
  6. Aumento nas exportações e, consequentemente, no emprego devido aos cinco últimos pontos.

A argumentação é lógica e tem amparo nos estudos de casos de países bem-sucedidos após suas aberturas comerciais. Assim, ao importar insumos intermediários em um mercado competitivo, haveria redução nos custos de produção e acesso a tecnologias de última geração embutidas nos bens de capital e intermediários, além de aumentar as opções de combinações no processo produtivo pela maior variedade de insumos importados. O caso da Embraer deve ser emulado, pois importa quase todos os insumos intermediários e exporta quase toda a produção, dizem os advogados da abertura.

Como a abertura comercial brasileira que está se desenhando assemelha-se a que ocorreu nos anos 90, vamos observar os dados e entender os resultados obtidos naquela época.

Entre 1989 e 1994, as tarifas alfandegárias e as barreiras não-tarifárias brasileiras foram substancialmente diminuídas de forma unilateral – isto é, sem realizar acordos comerciais significativos – e praticamente universal setorialmente. Ou seja, uma abertura comercial abrangente e de forma rápida temporalmente. Os resultados foram parcialmente na direção esperada. Digo parcialmente porque os cinco primeiros pontos mencionados acima ocorreram em alguma medida, mas foi um fracasso generalizado quanto ao sexto e último ponto. Quanto ao quarto ponto acima, a indústria nacional adquiriu competitividade para competir parcialmente no mercado interno contra os produtos importados e não é competitiva nos mercados externos, com raras exceções. Em síntese, houve aumento forte de produtividade comemorado pelos defensores da abertura – embora não tenha se refletido em crescimento do PIB – e queda robusta do emprego, somada a desarticulação de setores intensivos em tecnologia, como temiam alguns críticos da forma como a abertura foi realizada.

O Gráfico 1 exibe que o coeficiente de importação (importações / produção) aumentou bastante em vários setores manufatureiros, sobretudo de maior intensidade tecnológica, porém o coeficiente de exportação (exportações / produção) aumentou num ritmo muito inferior. Esse aumento significativo das importações desarticulou algumas cadeias industriais tecnológicas, sendo informática e eletrônicos o caso mais emblemático.

Variação entre 1980 e 1998 nos coeficientes de abertura comercial do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A Tabela 1 abaixo mostra que a produtividade do trabalho (valor adicionado por trabalhador) aumentou num ritmo forte, mas a um elevado custo social (ver Tabela 1 e Gráfico 2). Entre 1990 e 1998, houve desemprego de 16% da força de trabalho da indústria de transformação, que significou demissão líquida de 1,5 milhão de trabalhadores – a força de trabalho manufatureira diminuiu de 9,1 milhões para 7,6 milhões no período mencionado. Setorialmente, a diminuição do emprego foi generalizada (ver Gráfico 2), com os setores de alta e média-alta tecnologia mais impactados com quase 30% de diminuição do pessoal ocupado.

Variação do emprego industrial entre 1990 e 1998 do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Como se sabe, os trabalhadores desempregados da manufatura não foram alocados em funções melhores em outros setores. Eles foram alocados majoritariamente nos setores de comércio e serviços prestados à família, os quais possuem elevada informalidade, baixa produtividade e salários também baixos. Para resumir, passaram a trabalhar como camelôs, ambulantes, atendentes, cabeleireiros, etc.

Há de se ressaltar que o aumento da produtividade do trabalho nos anos 90 se deu mais em função da diminuição do emprego que do aumento do valor adicionado (ver Tabela 1), especialmente nos setores de alta e média-alta tecnologia. Além disso, esse aumento de produtividade foi de curta duração, pois foi restrito apenas aos anos 90. No século XXI, a produtividade do trabalho da indústria de transformação foi próxima de zero e negativa dependendo do período observado (isso em um período do Real muito apreciado, em que o efeito-preço foi maior que diminuição pretendida das tarifas).

Após averiguar os resultados da abertura comercial dos anos 90, voltamos a questão principal. A abertura comercial do governo Bolsonaro terá os impactos positivos esperados? Ela conseguirá diminuir o preço final dos produtos e melhorar a inserção do Brasil nas principais cadeias globais de valor?

Quanto à diminuição no preço dos produtos: a redução da carga tributária incidente nos produtos industriais será mais efetiva e terá maior impacto nas famílias mais pobres. Os produtores se balizarão em um preço médio (preço de competição) menor, favorecendo inclusive as exportações. Essa redução de impostos se justifica por vários motivos: os impostos sobre os produtos industriais são mais altos no Brasil que nos nossos principais parceiros comerciais; aumentaria a demanda agregada e tiraria a economia do ponto morto decorrente do elevado desemprego e ociosidade produtiva; o país precisa de mais justiça social no consumo. Vale ressaltar que essa diminuição dos impostos poderia ser compensada pelo aumento adicional da demanda e elevação das alíquotas das últimas faixas do imposto de renda, por exemplo.

Quanto à abertura comercial: o Brasil precisa eliminar as assimetrias nas alíquotas de importação, sobretudo nos insumos intermediários que tem tarifas elevadas e até dumping favoráveis a setores oligopolistas, e promover a escalada tarifária que consiste em alíquotas de importação menores para as matérias-primas e insumos básicos e progressivamente maiores para os sistemistas e montadores finais da cadeia produtiva. É aconselhável que a redução da alíquota de importação ocorra dento de acordos comerciais, e não de forma unilateral, pois assim poderá favorecer as exportações brasileiras para os países parceiros. Abrir unilateralmente não promove as exportações, como verificado na década de 90. Quanto ao tempo de implementação, recomenda-se que seja feita paulatinamente (uma duração de 8 a 10 anos) para garantir previsibilidade aos setores produtivos. Abrir em 5 anos como em 1990 provocou vários estragos em cadeias produtivas importantes, com fechamento de unidades fabris e desemprego elevado.

Produtividade, Valor Adicionado e Emprego, Variação percentual anual entre 1990 e 1998, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em síntese, os formuladores de políticas devem se atentar não apenas em importar mais, há sobretudo fatores relevantes do ponto de vista nacional, como ampliar as exportações, simplificar e diminuir a tributação, reduzir os impactos sociais e preservar os segmentos mais tecnológicos.  Certamente, o grau de proteção da economia brasileira é menor que aquele dos anos 80 e o estrago seria menor. Mas vale a pena minorá-los. Em síntese, os ensinamentos da abertura comercial brasileira deixam claro que a redução das alíquotas de importação de forma rápida, profunda, unilateral e universal numa economia que costuma ter câmbio apreciado e volátil pode ter um custo social elevadíssimo, ainda mais num cenário com desemprego acima de 2 dígitos. Além disso, não mudará nosso modelo de crescimento voltado essencialmente ao mercado interno.

Precisamos discutir mais esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Bolsonaro’s trade opening: high costs and dubious benefits?

Hiato de renda per capita aumenta na desindustrialização

Catching-up e falling behind: Pib per capita do Brasil dividido pelo dos Estados Unidos, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desenvolvimento é o melhoramento do padrão de vida. Logo, desenvolvimento elevado é atingir padrão de vida elevado. O padrão americano é emulado mundo afora e utilizado como referência entre os economistas. Mas para ter padrão de vida americano é preciso produtividade e renda per capita elevadas.

E como evoluiu o padrão de vida brasileiro relativamente ao país de referência? O Gráfico 1 acima, em formato de chapéu de bruxa, mostra que de 1950 até 1980, no período de industrialização, o Brasil se aproximou do padrão de vida americano ao reduzir o hiato de renda per capita com os Estados Unidos. No entanto, desde 1981 a 2018, período de desindustrialização, o hiato de renda per capita alargou-se. Todo o progresso obtido até 1980 foi perdido.  Hoje, a renda per capita do Brasil é um quarto da americana, como em 1950.

Nos períodos de industrialização – Plano de Metas de JK, Milagre Econômico e II PND – houve encurtamento do hiato (Gráfico 1), e durante os períodos de desindustrialização, houve alargamento. Observe que o hiato reduziu-se pouco entre 2005 a 2013, período em que tivemos crescimento industrial moderado devido a vários fatores favoráveis conforme abordado na seção 3 deste estudo.

Relativamente, o Brasil está parado no tempo. O progresso no seu processo de catching-up (emparelhamento) não foi continuado e o país acabou ficando para trás (falling behind). Comparado aos países asiáticos – como a Coréia do Sul que em 1950 tinha renda per capita inferior à brasileira – o Brasil fracassou. Fracassou quando implementou políticas ortodoxas ou heterodoxas, sem distinção. Os formuladores de políticas precisam ser mais criativos e originais se desejarem fazer o processo de catching up mais rapidamente para melhorar o padrão de vida de milhões de pessoas que dependem da renda para obter satisfação, seja para consumo de bens básicos, saúde, educação ou diversão.

Pib real da manufatura per capita do Brasil e dos Estados Unidos, 1980 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

O Gráfico 2 acima mostra que o péssimo desempenho da manufatura brasileira, que teve evolução negativa do produto manufatureiro per capita desde 1981, contribuiu sobremaneira para o alargamento do hiato de renda per capita. O PIB manufatureiro per capita do Brasil reduziu 26% entre 1980 e 2017, enquanto o americano aumentou 81% (Graf. 2). Por isso considera-se que a desindustrialização brasileira foi prematura e a americana não. A manufatura dos Estados Unidos contribuiu positivamente para o aumento da renda per capita no mesmo ritmo que a economia total, porém a manufatura brasileira evoluiu muito abaixo da economia total (Ver Gráficos 2 e 3). Dessa maneira, do ponto de vista setorial, o hiato de renda per capita brasileiro alargou-se após 1981 e retrocedeu para níveis da década de 50 devido principalmente à desindustrialização, pois a indústria brasileira teve crescimento per capita negativo!

Pib real per capita do Brasil e dos Estados Unidos, 1980 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Portanto, ocorre uma retração de longo prazo do produto manufatureiro real per capita desde 1981 e, consequentemente, aumento significativo do hiato de renda per capita em comparação com os países desenvolvidos. Se considerar a renda per capita como uma proxy do desenvolvimento, a desindustrialização brasileira contribuiu negativamente para o desenvolvimento do Brasil conforme assunto deste post e estudo.

Se a desindustrialização continuar, ao que tudo indica, o hiato de renda per capita irá aumentar e o padrão de vida brasileiro diminuirá relativamente ao resto do mundo.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Per capita income gap increases during deindustrialization

Renda per capita chinesa ultrapassa a brasileira

Renda per capita chinesa ultrapassa a brasileira, 1950 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em 2018, o PIB da China cresceu 6,6% conforme reportagem de hoje do Valor Econômico. Esta taxa é menor que o padrão de crescimento chinês de 10% ao ano observado durante mais de três décadas. Mas crescer 5% ao ano é o sonho para a maioria dos países do mundo. No Brasil, o sonho é crescer de modo continuado ao redor de 3,5%, mas está difícil.

O Gráfico abaixo resume o sucesso chinês e o fracasso brasileiro após 1980. Entre 1980 e 2018, a renda per capita chinesa multiplicou-se por 24,5 e a brasileira por apenas 1,3. Note que a curva chinesa é quase uma exponencial que manteve a inclinação mesmo crescendo 6,6% no ano passado. O feito chinês ganha maior dimensão devido a sua enorme população, cerca de 7 vezes maior que a brasileira.

Hoje em dia, a economia chinesa é a primeira ou a segunda maior economia do planeta, com 20% a 30% do PIB mundial dependendo da unidade monetária utilizada. Então, mesmo se a China reduzir ainda mais seu padrão de crescimento para 4% ao ano (algo não esperado para os próximos cinco anos), sua renda per capita continuará crescendo e em 20 anos alcançará a renda per capita de entrada dos países atualmente desenvolvidos, como Portugal. Agora caso cresça 4% durante 30 anos, alcançará a renda per capita dos países europeus. Alguém duvida?

Obs: taxa de crescimento populacional chinesa é baixa, atualmente 0,6% ao ano.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Chinese per capita income surpasses Brazilian

Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

O conteúdo deste post foi tema do Jornal Valor Econômico (04/fev/2019, página A3) da matéria intitulada Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB.

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

Desindustrialização setorial: setores que mais perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial: setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization reaches low and high technology sectors

Impacto dos preços relativos na desindustrialização e produtividade

Grande parcela da desindustrialização mundial mensurada a preços correntes deve-se à evolução dos preços relativos entre a manufatura e os serviços. William Baumol verificou que os preços dos serviços tendem a crescer acima dos preços manufaturados, principalmente porque a (i) produtividade cresce a uma taxa maior na manufatura do que nos serviços e (ii) os serviços em sua maioria possuem menor grau de comercialização com o exterior. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços devido ao aumento da produtividade e, por outro lado, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para aumentos de preços; enquanto que os serviços sofrem menor influência por esses dois canais de transmissão.

O Gráfico abaixo ilustra a evolução dos preços do setor manufatureiro e do setor de serviços para os Estados Unidos, país que pode ser utilizado como referência para a economia mundial. A partir de 1970 e com maior intensidade desde a década de 1980 o formato das curvas dos índices de preços lembra um jacaré abrindo a boca.

Evolução dos índices de preços da indústria e dos serviços para os Estados Unidos, 1947 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Além do crescimento distinto da produtividade, de um lado, o acirramento da globalização a partir de 1980 contribuiu para controlar a inflação dos produtos manufaturados que são muito comercializáveis. Por outro lado, a dinâmica de crescimento dos preços dos serviços depende mais de fatores internos (pois a maioria deles não são comercializáveis ainda) e dos canais de transmissão a la Baumol.

Certamente, a produção em grande escala pela China e países asiáticos de baixo custo da mão de obra contribuíram significativamente para segurar os preços industriais. Isso teve consequências mundiais no controle da inflação.

Ao comparar longos períodos, nota-se que os serviços tiveram valorização maior que a manufatura. Isso impacta diretamente as parcelas setoriais no PIB e os indicadores de produtividade mensurados a preços correntes. Também impacta o nível da produtividade quando mensurada a preços constantes a depender do ano-base (essa discussão técnica farei em outro post).

Agradeço ao economista Paulo Gala por me instigar a escrever sobre esse assunto.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Impact of relative prices on de-industrialization and productivity