Abertura comercial de Bolsonaro: custos altos e benefícios duvidosos?

A abertura comercial é um tema que sempre frequenta o noticiário brasileiro. Recentemente, tem pipocado notícias de uma nova abertura comercial, por meio da redução unilateral de tarifas de importação, a ser implementada no início do governo Bolsonaro. As informações vão na direção de uma abertura unilateral, universal e rápida, como a que ocorreu, no Brasil, no início da década de 1990. Mas qual seriam os impactos da abertura comercial hoje?

            Os argumentos favoráveis à abertura comercial se acumulam:

  1. Diminuição dos preços dos produtos, em especial de manufaturados, gerando benefícios aos consumidores (sobretudo de menor renda) e empresas produtivas.
  2. Aumento na variedade e na qualidade dos insumos intermediários importados.
  3. Aumento nas importações de bens de capital mais modernos.
  4. Aumento da concorrência, que induz os empresários a serem mais competitivos.
  5. Aumento na produtividade devido aos quatro últimos pontos.
  6. Aumento nas exportações e, consequentemente, no emprego devido aos cinco últimos pontos.

A argumentação é lógica e tem amparo nos estudos de casos de países bem-sucedidos após suas aberturas comerciais. Assim, ao importar insumos intermediários em um mercado competitivo, haveria redução nos custos de produção e acesso a tecnologias de última geração embutidas nos bens de capital e intermediários, além de aumentar as opções de combinações no processo produtivo pela maior variedade de insumos importados. O caso da Embraer deve ser emulado, pois importa quase todos os insumos intermediários e exporta quase toda a produção, dizem os advogados da abertura.

Como a abertura comercial brasileira que está se desenhando assemelha-se a que ocorreu nos anos 90, vamos observar os dados e entender os resultados obtidos naquela época.

Entre 1989 e 1994, as tarifas alfandegárias e as barreiras não-tarifárias brasileiras foram substancialmente diminuídas de forma unilateral – isto é, sem realizar acordos comerciais significativos – e praticamente universal setorialmente. Ou seja, uma abertura comercial abrangente e de forma rápida temporalmente. Os resultados foram parcialmente na direção esperada. Digo parcialmente porque os cinco primeiros pontos mencionados acima ocorreram em alguma medida, mas foi um fracasso generalizado quanto ao sexto e último ponto. Quanto ao quarto ponto acima, a indústria nacional adquiriu competitividade para competir parcialmente no mercado interno contra os produtos importados e não é competitiva nos mercados externos, com raras exceções. Em síntese, houve aumento forte de produtividade comemorado pelos defensores da abertura – embora não tenha se refletido em crescimento do PIB – e queda robusta do emprego, somada a desarticulação de setores intensivos em tecnologia, como temiam alguns críticos da forma como a abertura foi realizada.

O Gráfico 1 exibe que o coeficiente de importação (importações / produção) aumentou bastante em vários setores manufatureiros, sobretudo de maior intensidade tecnológica, porém o coeficiente de exportação (exportações / produção) aumentou num ritmo muito inferior. Esse aumento significativo das importações desarticulou algumas cadeias industriais tecnológicas, sendo informática e eletrônicos o caso mais emblemático.

G.1 - Variação entre 1990 e 1998 nos coeficientes de abertura, Brasil ok.jpg

A Tabela 1 abaixo mostra que a produtividade do trabalho (valor adicionado por trabalhador) aumentou num ritmo forte, mas a um elevado custo social (ver Tabela 1 e Gráfico 2). Entre 1990 e 1998, houve desemprego de 16% da força de trabalho da indústria de transformação, que significou demissão líquida de 1,5 milhão de trabalhadores – a força de trabalho manufatureira diminuiu de 9,1 milhões para 7,6 milhões no período mencionado. Setorialmente, a diminuição do emprego foi generalizada (ver Gráfico 2), com os setores de alta e média-alta tecnologia mais impactados com quase 30% de diminuição do pessoal ocupado.

G.2 - Variação do Emprego Industrial entre 1990 e 1998, Brasil ok.jpg

Como se sabe, os trabalhadores desempregados da manufatura não foram alocados em funções melhores em outros setores. Eles foram alocados majoritariamente nos setores de comércio e serviços prestados à família, os quais possuem elevada informalidade, baixa produtividade e salários também baixos. Para resumir, passaram a trabalhar como camelôs, ambulantes, atendentes, cabeleireiros, etc.

Há de se ressaltar que o aumento da produtividade do trabalho nos anos 90 se deu mais em função da diminuição do emprego que do aumento do valor adicionado (ver Tabela 1), especialmente nos setores de alta e média-alta tecnologia. Além disso, esse aumento de produtividade foi de curta duração, pois foi restrito apenas aos anos 90. No século XXI, a produtividade do trabalho da indústria de transformação foi próxima de zero e negativa dependendo do período observado (isso em um período do Real muito apreciado, em que o efeito-preço foi maior que diminuição pretendida das tarifas).

Após averiguar os resultados da abertura comercial dos anos 90, voltamos a questão principal. A abertura comercial do governo Bolsonaro terá os impactos positivos esperados? Ela conseguirá diminuir o preço final dos produtos e melhorar a inserção do Brasil nas principais cadeias globais de valor?

Quanto à diminuição no preço dos produtos: a redução da carga tributária incidente nos produtos industriais será mais efetiva e terá maior impacto nas famílias mais pobres. Os produtores se balizarão em um preço médio (preço de competição) menor, favorecendo inclusive as exportações. Essa redução de impostos se justifica por vários motivos: os impostos sobre os produtos industriais são mais altos no Brasil que nos nossos principais parceiros comerciais; aumentaria a demanda agregada e tiraria a economia do ponto morto decorrente do elevado desemprego e ociosidade produtiva; o país precisa de mais justiça social no consumo. Vale ressaltar que essa diminuição dos impostos poderia ser compensada pelo aumento adicional da demanda e elevação das alíquotas das últimas faixas do imposto de renda, por exemplo.

Quanto à abertura comercial: o Brasil precisa eliminar as assimetrias nas alíquotas de importação, sobretudo nos insumos intermediários que tem tarifas elevadas e até dumping favoráveis a setores oligopolistas, e promover a escalada tarifária que consiste em alíquotas de importação menores para as matérias-primas e insumos básicos e progressivamente maiores para os sistemistas e montadores finais da cadeia produtiva. É aconselhável que a redução da alíquota de importação ocorra dento de acordos comerciais, e não de forma unilateral, pois assim poderá favorecer as exportações brasileiras para os países parceiros. Abrir unilateralmente não promove as exportações, como verificado na década de 90. Quanto ao tempo de implementação, recomenda-se que seja feita paulatinamente (uma duração de 8 a 10 anos) para garantir previsibilidade aos setores produtivos. Abrir em 5 anos como em 1990 provocou vários estragos em cadeias produtivas importantes, com fechamento de unidades fabris e desemprego elevado.

Tab. 1 - Produtividade, VA e Emprego, variação anual entre 1990 e 1998 ok.jpg

Em síntese, os formuladores de políticas devem se atentar não apenas em importar mais, há sobretudo fatores relevantes do ponto de vista nacional, como ampliar as exportações, simplificar e diminuir a tributação, reduzir os impactos sociais e preservar os segmentos mais tecnológicos.  Certamente, o grau de proteção da economia brasileira é menor que aquele dos anos 80 e o estrago seria menor. Mas vale a pena minorá-los. Em síntese, os ensinamentos da abertura comercial brasileira deixam claro que a redução das alíquotas de importação de forma rápida, profunda, unilateral e universal numa economia que costuma ter câmbio apreciado e volátil pode ter um custo social elevadíssimo, ainda mais num cenário com desemprego acima de 2 dígitos. Além disso, não mudará nosso modelo de crescimento voltado essencialmente ao mercado interno.

Precisamos discutir mais esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Bolsonaro’s trade opening: high costs and dubious benefits?

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Hiato de renda per capita aumenta na desindustrialização

g.1 pib per capita do brasil dividido pelo dos estados unidos ok

Desenvolvimento é o melhoramento do padrão de vida. Logo, desenvolvimento elevado é atingir padrão de vida elevado. O padrão americano é emulado mundo afora e utilizado como referência entre os economistas. Mas para ter padrão de vida americano é preciso produtividade e renda per capita elevadas.

E como evoluiu o padrão de vida brasileiro relativamente ao país de referência? O Gráfico 1 acima, em formato de chapéu de bruxa, mostra que de 1950 até 1980, no período de industrialização, o Brasil se aproximou do padrão de vida americano ao reduzir o hiato de renda per capita com os Estados Unidos. No entanto, desde 1981 a 2018, período de desindustrialização, o hiato de renda per capita alargou-se. Todo o progresso obtido até 1980 foi perdido.  Hoje, a renda per capita do Brasil é um quarto da americana, como em 1950.

Nos períodos de industrialização – Plano de Metas de JK, Milagre Econômico e II PND – houve encurtamento do hiato (Gráfico 1), e durante os períodos de desindustrialização, houve alargamento. Observe que o hiato reduziu-se pouco entre 2005 a 2013, período em que tivemos crescimento industrial moderado devido a vários fatores favoráveis conforme abordado na seção 3 deste estudo.

Relativamente, o Brasil está parado no tempo. O progresso no seu processo de catching-up (emparelhamento) não foi continuado e o país acabou ficando para trás (falling behind). Comparado aos países asiáticos – como a Coréia do Sul que em 1950 tinha renda per capita inferior à brasileira – o Brasil fracassou. Fracassou quando implementou políticas ortodoxas ou heterodoxas, sem distinção. Os formuladores de políticas precisam ser mais criativos e originais se desejarem fazer o processo de catching up mais rapidamente para melhorar o padrão de vida de milhões de pessoas que dependem da renda para obter satisfação, seja para consumo de bens básicos, saúde, educação ou diversão.

G.2 - PIB real da Manufatura per capita (1980 = 1) ok.jpg

O Gráfico 2 acima mostra que o péssimo desempenho da manufatura brasileira, que teve evolução negativa do produto manufatureiro per capita desde 1981, contribuiu sobremaneira para o alargamento do hiato de renda per capita. O PIB manufatureiro per capita do Brasil reduziu 26% entre 1980 e 2017, enquanto o americano aumentou 81% (Graf. 2). Por isso considera-se que a desindustrialização brasileira foi prematura e a americana não. A manufatura dos Estados Unidos contribuiu positivamente para o aumento da renda per capita no mesmo ritmo que a economia total, porém a manufatura brasileira evoluiu muito abaixo da economia total (Ver Gráficos 2 e 3). Dessa maneira, do ponto de vista setorial, o hiato de renda per capita brasileiro alargou-se após 1981 e retrocedeu para níveis da década de 50 devido principalmente à desindustrialização, pois a indústria brasileira teve crescimento per capita negativo!

G.3 - PIB real da Economia Total per capita (1980 = 1) ok.jpg

Portanto, ocorre uma retração de longo prazo do produto manufatureiro real per capita desde 1981 e, consequentemente, aumento significativo do hiato de renda per capita em comparação com os países desenvolvidos. Se considerar a renda per capita como uma proxy do desenvolvimento, a desindustrialização brasileira contribuiu negativamente para o desenvolvimento do Brasil conforme assunto deste post e estudo.

Se a desindustrialização continuar, ao que tudo indica, o hiato de renda per capita irá aumentar e o padrão de vida brasileiro diminuirá relativamente ao resto do mundo.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Per capita income gap increases during deindustrialization

Renda per capita chinesa ultrapassa a brasileira

renda per capita chinesa ultrapassa a brasileira 1950 a 2018 ok

Em 2018, o PIB da China cresceu 6,6% conforme reportagem de hoje do Valor Econômico. Esta taxa é menor que o padrão de crescimento chinês de 10% ao ano observado durante mais de três décadas. Mas crescer 5% ao ano é o sonho para a maioria dos países do mundo. No Brasil, o sonho é crescer de modo continuado ao redor de 3,5%, mas está difícil.

O Gráfico abaixo resume o sucesso chinês e o fracasso brasileiro após 1980. Entre 1980 e 2018, a renda per capita chinesa multiplicou-se por 24,5 e a brasileira por apenas 1,3. Note que a curva chinesa é quase uma exponencial que manteve a inclinação mesmo crescendo 6,6% no ano passado. O feito chinês ganha maior dimensão devido a sua enorme população, cerca de 7 vezes maior que a brasileira.

Hoje em dia, a economia chinesa é a primeira ou a segunda maior economia do planeta, com 20% a 30% do PIB mundial dependendo da unidade monetária utilizada. Então, mesmo se a China reduzir ainda mais seu padrão de crescimento para 4% ao ano (algo não esperado para os próximos cinco anos), sua renda per capita continuará crescendo e em 20 anos alcançará a renda per capita de entrada dos países atualmente desenvolvidos, como Portugal. Agora caso cresça 4% durante 30 anos, alcançará a renda per capita dos países europeus. Alguém duvida?

Obs: taxa de crescimento populacional chinesa é baixa, atualmente 0,6% ao ano.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Chinese per capita income surpasses Brazilian

Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

g.1 - setores que mais perderam peso no pib, 1970-2016 okk

G.2 - Setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016 okk.png

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization reaches low and high technology sectors

Impacto dos preços relativos na desindustrialização e produtividade

Grande parcela da desindustrialização mundial mensurada a preços correntes deve-se à evolução dos preços relativos entre a manufatura e os serviços. William Baumol verificou que os preços dos serviços tendem a crescer acima dos preços manufaturados, principalmente porque a (i) produtividade cresce a uma taxa maior na manufatura do que nos serviços e (ii) os serviços em sua maioria possuem menor grau de comercialização com o exterior. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços devido ao aumento da produtividade e, por outro lado, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para aumentos de preços; enquanto que os serviços sofrem menor influência por esses dois canais de transmissão.

O Gráfico abaixo ilustra a evolução dos preços do setor manufatureiro e do setor de serviços para os Estados Unidos, país que pode ser utilizado como referência para a economia mundial. A partir de 1970 e com maior intensidade desde a década de 1980 o formato das curvas dos índices de preços lembra um jacaré abrindo a boca.

Índices de preços

Além do crescimento distinto da produtividade, de um lado, o acirramento da globalização a partir de 1980 contribuiu para controlar a inflação dos produtos manufaturados que são muito comercializáveis. Por outro lado, a dinâmica de crescimento dos preços dos serviços depende mais de fatores internos (pois a maioria deles não são comercializáveis ainda) e dos canais de transmissão a la Baumol.

Certamente, a produção em grande escala pela China e países asiáticos de baixo custo da mão de obra contribuíram significativamente para segurar os preços industriais. Isso teve consequências mundiais no controle da inflação.

Ao comparar longos períodos, nota-se que os serviços tiveram valorização maior que a manufatura. Isso impacta diretamente as parcelas setoriais no PIB e os indicadores de produtividade mensurados a preços correntes. Também impacta o nível da produtividade quando mensurada a preços constantes a depender do ano-base (essa discussão técnica farei em outro post).

Agradeço ao economista Paulo Gala por me instigar a escrever sobre esse assunto.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Impact of relative prices on de-industrialization and productivity

A desindustrialização é um fenômeno mundial?

A desindustrialização é uma tendência mundial e afeta todos os países sem distinção? A resposta depende de como se mensura a desindustrialização, se a preços correntes ou a preços constantes. A preços correntes, a manufatura mundial perde participação no PIB desde início da década de 1970, conforme o primeiro Gráfico abaixo. Entretanto, a preços constantes, o mundo não se desindustrializa (ver Gráfico). Na verdade, desde meados dos anos 2000 a parcela da manufatura no PIB a preços constantes aumentou de 16% para 18% do PIB. Ressalta-se que a série a preços constantes elimina a inflação intersetorial e, por isso, é a mais indicada para avaliar mudança estrutural.

Manufatura mundial (% no PIB), 1970- 2015

Será que a China, que industrializou-se num ritmo muito intenso nas últimas décadas e atualmente detém um quarto do parque manufatureiro mundial, influenciou o formato das curvas do primeiro Gráfico? O segundo Gráfico mensura a parcela da manufatura no PIB do “Mundo sem China” como uma proxy da desindustrialização neutra, isto é, sem a influência da China. Note pelo segundo Gráfico que a preços correntes a desindustrialização é ainda mais intensa, no entanto, a preços constantes a parcela da manufatura permanece estável em torno de 16% durante todo o período. Logo, não há desindustrialização do “Mundo sem China”.

Desindustrialização Neutra - manufatura (% no PIB) do Mundo sem China

E o Brasil? Veja o Gráfico abaixo.

Indústria de transformação (% no PIB), Brasil, 1970-2015

O Brasil perdeu participação no PIB a preços correntes e, também, a preços constantes desde a década de 1980, conforme o Gráfico acima.

A literatura internacional (síntese aqui e aqui) de desindustrialização tem identificado desindustrialização mundial apenas quando o VAM no PIB é mensurado a preços correntes devido às mudanças nos preços relativos, pois a inflação da manufatura tem crescido num ritmo muito inferior ao registrado pelo restante da economia. Isso ocorre devido ao crescimento da produtividade ser maior na manufatura que no resto da economia, principalmente no setor de serviços e ao fato de que os serviços, em sua maioria, possuem menor grau de comercialização com o exterior que os produtos manufaturados. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços em virtude do crescimento da produtividade redutora de custos e, por outro, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para repasses de preços; já os serviços sofrem menor influência desses dois canais de transmissão.

Dessa maneira, a desindustrialização a preços correntes deve-se aos preços relativos, ou seja, é um fenômeno monetário com consequências reais. Para estudos de desindustrialização a série mensurada a preços constantes é a que interessa pois ela capta a capacidade de a manufatura influenciar o crescimento do restante da economia, já desconsiderando a inflação intersetorial. Assim, no Brasil, a diminuição da parcela da manufatura no PIB a preços constantes desde início da década de 1980 significa que a manufatura cresceu abaixo do PIB e passou a contribuir cada vez menos para a sua formação.

Mas quanto o Brasil difere da economia mundial?

A Tabela abaixo exibe o grau de industrialização e a evolução do produto manufatureiro real entre 1980 e 2015, período da desindustrialização brasileira, para os Estados Unidos, Mundo, “Mundo sem China” e Brasil. Vale ressaltar que os Estados Unidos são um país de industrialização madura e líder na geração de tecnologias.

Tabela - VAM, 1980-2015 - Mundo, EUA e Brasil

A desindustrialização brasileira foi muito mais expressiva do que nas regiões comparadas na Tabela acima, tanto a preços correntes quanto constantes. A preços correntes, o VAM no PIB diminuiu para as regiões analisadas, em conformidade com a literatura especializada, mas a redução do Brasil foi mais intensa. A preços constantes, o Mundo e os Estados Unidos aumentaram o grau de industrialização, respectivamente, em 10% e 2%, entre 1980 e 2015. Se considerar a desindustrialização do “Mundo sem China” como desindustrialização normal devido a fatores que afetam todos os países (como a globalização), a desindustrialização brasileira é muito anormal, já que a parcela do VAM no PIB do “Mundo sem China”, a preços constantes, teve uma redução de apenas 1% e a do Brasil diminuiu 42%, entre 1980 e 2015 (ver Tabela).

Em síntese, a economia mundial, o “mundo sem China” e os Estados Unidos (assim como vários países) não se desindustrializam desde a década de 1970, pois a manufatura não reduziu sua participação no PIB a preços constantes. O Brasil segue na contramão da economia mundial e apresenta uma trajetória bem nítida de desindustrialização que teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro, conforme abordado no post anterior.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Is deindustrialization a global phenomenon?

Pico da industrialização brasileira e períodos de desindustrialização intensa

Após o pico da industrialização brasileira em 1980 houve dois períodos de desindustrialização intensa, que foram intermediados por um breve momento de manutenção da parcela manufatureira no PIB entre 2000 e 2008. A indústria de transformação não aumentou sua participação no PIB nem no momento mais favorável à sua expansão na primeira década dos 2000’s, período em que houve grande crescimento da demanda doméstica (boom do crédito e do emprego formal, e aumento real do salário mínimo) por bens manufaturados. Certamente, o vazamento de demanda para o exterior na forma de aumento das importações é outra faceta dessa questão. A experiência recente mostrou que políticas que estimulam apenas a demanda agregada não serão suficientes para revitalizar o setor industrial brasileiro, embora sejam imprescindíveis no momento tamanha a ociosidade deste setor.

Pico e qualidade da industrialização brasileira: o auge da industrialização brasileira foi em 1980. Até este ano, o produto manufatureiro real expandiu-se a taxas elevadas. Entre 1947 e 1980, o PIB manufatureiro real multiplicou-se 15 vezes. Ao encerrar o ciclo de industrialização, durante o II PND houve implantação e expansão de segmentos industriais relevantes à matriz de produção doméstica, especialmente de bens intermediários (metalurgia dos não ferrosos, química, petroquímica, fertilizantes, papel e celulose, siderurgia e cimento) e bens de capital (equipamentos de transporte, máquinas e equipamentos mecânicos, elétricos e de comunicações). A industrialização ocorrida até 1980 foi no sentido de implantar setores ausentes e enraizar localmente a produção de insumos e componentes dos setores instalados. O Brasil passou a fabricar produtos e insumos intermediários de praticamente todos os segmentos existentes nos países de industrialização madura, mas não os produzia com a mesma eficiência porque a indústria doméstica era muito protegida, o desenvolvimento tecnológico era fraco e o coeficiente de exportação baixo. O desempenho exportador e a geração de tecnologia pelas empresas brasileiras eram incipientes comparativamente aos países de industrialização madura (Estados Unidos, Japão e Alemanha). Nesse sentido, foi uma industrialização parcial e de qualidade inferior.

Desindustrialização 1948-2018

Períodos de desindustrialização intensa: houve dois períodos de desindustrialização intensa (ver Gráfico). O primeiro, de 1981 a 1999, iniciado com a crise da dívida externa, intermediado com a remoção da proteção pela abertura comercial e finalizado com a reestruturação industrial num ambiente com câmbio sobrevalorizado e juros elevados. O segundo período de 2009 até 2017, inicia-se com a crise internacional de setembro/2008 e seus efeitos imediatos no comércio internacional e nas decisões de investimento, e continuou com a crise político-econômica brasileira após a eleição de 2014, que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nas incertezas políticas desde então.

Nem industrialização nem desindustrialização (2000-2008): entre esses dois períodos de desindustrialização intensa houve um momento favorável a expansão industrial. No entanto, a parcela da manufatura no PIB manteve-se estável entre 2000 e 2008. Note que nem mesmo no período mais favorável ao crescimento industrial desde a década de 1970, em que a demanda por produtos industriais cresceu acima da demanda total, a manufatura aumentou participação no PIB. Um estudo (ver versão resumida publicada em inglês aqui) mostrou que a partir de meados dos anos 2000 ocorreu um significativo vazamento de demanda para o exterior. Apesar de haver demanda robusta nos anos 2000, cerca de 40% dela vazou para o exterior na forma de importações porque a indústria brasileira perdeu competitividade no mercado doméstico para os produtos importados. Isso coloca em dúvida se apenas medidas que estimulem a demanda agregada – como as dos Governos Lula – sejam suficientes para revitalizar a indústria doméstica.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Peak of Brazilian industrialization and periods of intense deindustrialization