A desindustrialização é um fenômeno mundial?

A desindustrialização é uma tendência mundial e afeta todos os países sem distinção? A resposta depende de como se mensura a desindustrialização, se a preços correntes ou a preços constantes. A preços correntes, a manufatura mundial perde participação no PIB desde início da década de 1970, conforme o primeiro Gráfico abaixo. Entretanto, a preços constantes, o mundo não se desindustrializa (ver Gráfico). Na verdade, desde meados dos anos 2000 a parcela da manufatura no PIB a preços constantes aumentou de 16% para 18% do PIB. Ressalta-se que a série a preços constantes elimina a inflação intersetorial e, por isso, é a mais indicada para avaliar mudança estrutural.

Manufatura mundial (% no PIB), 1970- 2015

Será que a China, que industrializou-se num ritmo muito intenso nas últimas décadas e atualmente detém um quarto do parque manufatureiro mundial, influenciou o formato das curvas do primeiro Gráfico? O segundo Gráfico mensura a parcela da manufatura no PIB do “Mundo sem China” como uma proxy da desindustrialização neutra, isto é, sem a influência da China. Note pelo segundo Gráfico que a preços correntes a desindustrialização é ainda mais intensa, no entanto, a preços constantes a parcela da manufatura permanece estável em torno de 16% durante todo o período. Logo, não há desindustrialização do “Mundo sem China”.

Desindustrialização Neutra - manufatura (% no PIB) do Mundo sem China

E o Brasil? Veja o Gráfico abaixo.

Indústria de transformação (% no PIB), Brasil, 1970-2015

O Brasil perdeu participação no PIB a preços correntes e, também, a preços constantes desde a década de 1980, conforme o Gráfico acima.

A literatura internacional (síntese aqui e aqui) de desindustrialização tem identificado desindustrialização mundial apenas quando o VAM no PIB é mensurado a preços correntes devido às mudanças nos preços relativos, pois a inflação da manufatura tem crescido num ritmo muito inferior ao registrado pelo restante da economia. Isso ocorre devido ao crescimento da produtividade ser maior na manufatura que no resto da economia, principalmente no setor de serviços e ao fato de que os serviços, em sua maioria, possuem menor grau de comercialização com o exterior que os produtos manufaturados. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços em virtude do crescimento da produtividade redutora de custos e, por outro, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para repasses de preços; já os serviços sofrem menor influência desses dois canais de transmissão.

Dessa maneira, a desindustrialização a preços correntes deve-se aos preços relativos, ou seja, é um fenômeno monetário com consequências reais. Para estudos de desindustrialização a série mensurada a preços constantes é a que interessa pois ela capta a capacidade de a manufatura influenciar o crescimento do restante da economia, já desconsiderando a inflação intersetorial. Assim, no Brasil, a diminuição da parcela da manufatura no PIB a preços constantes desde início da década de 1980 significa que a manufatura cresceu abaixo do PIB e passou a contribuir cada vez menos para a sua formação.

Mas quanto o Brasil difere da economia mundial?

A Tabela abaixo exibe o grau de industrialização e a evolução do produto manufatureiro real entre 1980 e 2015, período da desindustrialização brasileira, para os Estados Unidos, Mundo, “Mundo sem China” e Brasil. Vale ressaltar que os Estados Unidos são um país de industrialização madura e líder na geração de tecnologias.

Tabela - VAM, 1980-2015 - Mundo, EUA e Brasil

A desindustrialização brasileira foi muito mais expressiva do que nas regiões comparadas na Tabela acima, tanto a preços correntes quanto constantes. A preços correntes, o VAM no PIB diminuiu para as regiões analisadas, em conformidade com a literatura especializada, mas a redução do Brasil foi mais intensa. A preços constantes, o Mundo e os Estados Unidos aumentaram o grau de industrialização, respectivamente, em 10% e 2%, entre 1980 e 2015. Se considerar a desindustrialização do “Mundo sem China” como desindustrialização normal devido a fatores que afetam todos os países (como a globalização), a desindustrialização brasileira é muito anormal, já que a parcela do VAM no PIB do “Mundo sem China”, a preços constantes, teve uma redução de apenas 1% e a do Brasil diminuiu 42%, entre 1980 e 2015 (ver Tabela).

Em síntese, a economia mundial, o “mundo sem China” e os Estados Unidos (assim como vários países) não se desindustrializam desde a década de 1970, pois a manufatura não reduziu sua participação no PIB a preços constantes. O Brasil segue na contramão da economia mundial e apresenta uma trajetória bem nítida de desindustrialização que teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro, conforme abordado no post anterior.

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Desindustrialização contribuiu negativamente para o desenvolvimento brasileiro

A indústria de transformação foi a carro-chefe do crescimento econômico do Brasil até o 1980. Na etapa de industrialização houve expansão robusta do PIB manufatureiro real, da participação industrial no PIB e do PIB manufatureiro real per capita. No entanto, desde 1981, a indústria perdeu o status de locomotiva do crescimento e entrou em um processo intenso de desindustrialização, contribuindo negativamente para o crescimento do produto per capita do país (ver Gráfico das últimas sete décadas).

Desindustrialização 1948-2018

Grau de industrialização: a indústria de transformação aumentou de 13,8% para 19,8% sua parcela no PIB do Brasil (a preços básicos e constantes de 2018) entre 1948 até 1973 e manteve-se neste patamar até 1980. No entanto, a industrialização foi abordada. Desde 1981, a manufatura cresceu abaixo do restante da economia na maioria dos anos, assim, deixou de ser a locomotiva do crescimento. A partir de 1981, há uma tendência de diminuição acentuada da participação da manufatura no PIB. Isso caracteriza um processo estrutural de desindustrialização. Em 2018, a manufatura representou apenas 11,3% do PIB, nível inferior ao do início da série em 1947.

PIB manufatureiro real: Entre 1947 a 1980, o PIB real manufatureiro multiplicou-se por 15 e o parque industrial brasileiro aumentou muito, conforme exibido pelas barras verticais do Gráfico. Note que o PIB real ficou praticamente estagnado nas décadas de 1980 e 1990. Os voos de galinha apenas recompuseram as perdas nos triênios das crises de 1980-1982 e 1990-1992. Embora o PIB real tenha crescido significativamente de 2000 a 2008, ele reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Portanto, um processo de desindustrialização absoluta pode estar em curso desde 2014.

PIB real manufatureiro per capita: o PIB real da indústria de transformação per capita multiplicou-se por 6,2 entre 1947 e 1980, no período de industrialização (linha vermelha do Gráfico). Até 1980 a industrialização contribuiu positivamente para aumentar a renda per capita do Brasil, consequentemente, para o desenvolvimento do país. Chama atenção que o produto manufatureiro real per capita apresenta tendência de queda desde 1981 e, em 2018, foi 25% inferior ao nível obtido em 1980. Isso tem alargado ainda mais o hiato de renda per capita entre o Brasil e os países desenvolvidos – um processo conhecido como falling behind. Portanto, no período da desindustrialização, entre 1981 e 2018, a taxa de expansão do produto manufatureiro real foi inferior à taxa de crescimento da população brasileira – e menor ainda que a taxa de crescimento da população economicamente ativa (PEA), o que é mais grave –, logo, o PIB manufatureiro real per capita diminuiu (linha vermelha do Gráfico) e, como consequência, a manufatura contribuiu negativamente para o desenvolvimento econômico.

Vale ressaltar que o processo de desenvolvimento requer aumento da renda per capita e melhoria dos indicadores sociais. A melhoria dos indicadores sociais e da qualidade de vida pode ser obtida direta e indiretamente pelo aumento da renda per capita e por outras medidas.

Portanto, o Brasil apresenta uma tendência bem definida de desindustrialização desde 1981. A retração de 25% do produto manufatureiro real per capita desde 1981 indica que a desindustrialização teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro. Na etapa de industrialização, o Brasil se aproximou dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil tem ficado para trás e se afastado ainda mais dos países desenvolvidos na etapa de desindustrialização. O país precisa urgentemente revitalizar seu setor industrial se quiser expandir sua renda per capita mais rapidamente.