PIB menor devido ao vazamento de demanda para o exterior em 2018

Boca do Jacaré - Vazamento de demanda para o exterior, Brasil, 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em 2018, o PIB do Brasil cresceu apenas 1,1%. Este crescimento teria sido de 1,6% se não fosse a contribuição negativa do setor externo de 0,5 ponto percentual. Em 2018, as importações avançaram 8,5%, num ritmo muito superior ao do PIB da economia e da indústria de transformação.

 A partir de 2005, as importações evoluíram num ritmo muito superior ao da indústria de transformação, conforme exibido no Gráfico acima em formato de “boca do jacaré”. Com isso, ocorre o vazamento de demanda para o exterior, um fenômeno muito conhecido que se manifesta nas economias que perderam competitividade no mercado doméstico para os importados.

Há uma correlação positiva entre o vazamento de demanda para o exterior e a desindustrialização brasileira. A partir de 2005 quando há vazamento de demanda para o exterior a indústria de transformação perde participação no PIB (basta comparar o Gráfico acima com o de baixo).

Indústria de transformação (% no PIB), 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado.jpg

Em 2018, o vazamento de demanda para o exterior tirou meio ponto de crescimento do PIB do Brasil e alguns pontos percentuais de crescimento do PIB da indústria de transformação, pois dois terços das importações são compostas de produtos industriais e as mais significantes altas nas importações foram em produtos manufaturados (refino de petróleo, materiais eletrônicos e equipamentos de comunicação, e vestuário).

Os formuladores de políticas do Brasil precisam se atentar para esse fenômeno do vazamento de demanda e para a perda de competitividade da indústria doméstica. O país poderia ter crescido mais desde 2005 se a boca do jacaré não fosse tão aberta.

Cabe destacar que parte das importações são inelásticas, sobretudo de insumos e componentes tecnológicos que o país não produz ou deixou de produzir conforme o post de anteontem tema do Jornal Valor Econômico (60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes). Porém, o Brasil também está perdendo competitividade para os importados nos produtos acabados que fabrica em território doméstico. Isso é lamentável tendo em vista o elevado desemprego e a enorme capacidade produtiva ociosa do parque fabril.

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Textos acadêmicos sobre vazamento de demanda para o exterior aqui e aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Lower GDP due to leakage of demand to abroad in 2018

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Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

China e Índia contribuirão com 40% do crescimento mundial

Projeção de crescimento mundial, da China e da India, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

FMI reduz projeção de crescimento mundial, liderado por Índia e China

O FMI reduziu a projeção do crescimento mundial para 3,5% em 2019 e 3,6% em 2020. Atualmente, China e Índia contribuem para explicar 40% de todo o crescimento mundial. Apenas a China contribui com um terço da expansão mundial.

Vale ressaltar que a economia mundial cresceu 3,5% ao ano nos últimos 40 anos.

As projeções indicam que a Índia está acelerando sua taxa de crescimento. Em 2018, a Índia cresceu 7,3%, projeta-se 7,5% para 2019 e 7,7% em 2020.

O novo padrão de crescimento chinês é na casa dos 6% ao ano para o triênio de 2018-2020. Vale ressaltar que a China cresceu cerca de 10% ao ano por três décadas e meia. Mas, atualmente impacta mais a economia mundial crescendo 6% porque detém o maior volume de comércio do planeta, sendo líder em exportação e vice-líder em importação.

China e Índia povoam 36,5% do planeta terra. O Brasil pode tirar proveito dessa situação exportando commodities e alimentos, sobretudo alimentos com maior grau de processamento. Já passou da hora do Brasil ter um acordo de comércio relevante com a China e a Índia para exportar também produtos manufaturados.

Os Estados Unidos, ainda maior gigante mundial, crescerão 2,5% neste ano, contribuindo com aproximadamente 17% do crescimento global de 2019. As projeções do FMI são de desaceleração do crescimento americano de 2,9% em 2018, 2,5% em 2019 e 1,8% em 2020. Essa desaceleração é atribuída principalmente a retirada dos estímulos fiscais, além da guerra comercial com a China.

De todas as projeções mencionadas, a do Brasil é a mais otimista. Dificilmente, os economistas acertam em janeiro a taxa de crescimento brasileira do acumulado entre janeiro e dezembro. Nem o FMI, nem dezenas de bancos ou consultorias com renomados economistas acertam o crescimento brasileiro. Não se deve levar previsão da taxa de crescimento brasileira a sério como a dos demais países grandes. O Brasil nos últimos anos tem surpreendido negativamente. No fim do ano a gente confere o resultado.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: China and India will contribute 40% of world growth

A desindustrialização é um fenômeno mundial?

A desindustrialização é uma tendência mundial e afeta todos os países sem distinção? A resposta depende de como se mensura a desindustrialização, se a preços correntes ou a preços constantes. A preços correntes, a manufatura mundial perde participação no PIB desde início da década de 1970, conforme o primeiro Gráfico abaixo. Entretanto, a preços constantes, o mundo não se desindustrializa (ver Gráfico). Na verdade, desde meados dos anos 2000 a parcela da manufatura no PIB a preços constantes aumentou de 16% para 18% do PIB. Ressalta-se que a série a preços constantes elimina a inflação intersetorial e, por isso, é a mais indicada para avaliar mudança estrutural.

Desindustrialização mundial, 1970- 2015, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Será que a China, que industrializou-se num ritmo muito intenso nas últimas décadas e atualmente detém um quarto do parque manufatureiro mundial, influenciou o formato das curvas do primeiro Gráfico? O segundo Gráfico mensura a parcela da manufatura no PIB do “Mundo sem China” como uma proxy da desindustrialização neutra, isto é, sem a influência da China. Note pelo segundo Gráfico que a preços correntes a desindustrialização é ainda mais intensa, no entanto, a preços constantes a parcela da manufatura permanece estável em torno de 16% durante todo o período. Logo, não há desindustrialização do “Mundo sem China”.

Desindustrialização Neutra: desindustrialização do Mundo sem China, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

E o Brasil? Veja o Gráfico abaixo.

Indústria de transformação (% no PIB), Brasil, 1970-2015

O Brasil perdeu participação no PIB a preços correntes e, também, a preços constantes desde a década de 1980, conforme o Gráfico acima.

A literatura internacional (síntese aqui e aqui) de desindustrialização tem identificado desindustrialização mundial apenas quando o VAM no PIB é mensurado a preços correntes devido às mudanças nos preços relativos, pois a inflação da manufatura tem crescido num ritmo muito inferior ao registrado pelo restante da economia. Isso ocorre devido ao crescimento da produtividade ser maior na manufatura que no resto da economia, principalmente no setor de serviços e ao fato de que os serviços, em sua maioria, possuem menor grau de comercialização com o exterior que os produtos manufaturados. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços em virtude do crescimento da produtividade redutora de custos e, por outro, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para repasses de preços; já os serviços sofrem menor influência desses dois canais de transmissão.

Dessa maneira, a desindustrialização a preços correntes deve-se aos preços relativos, ou seja, é um fenômeno monetário com consequências reais. Para estudos de desindustrialização a série mensurada a preços constantes é a que interessa pois ela capta a capacidade de a manufatura influenciar o crescimento do restante da economia, já desconsiderando a inflação intersetorial. Assim, no Brasil, a diminuição da parcela da manufatura no PIB a preços constantes desde início da década de 1980 significa que a manufatura cresceu abaixo do PIB e passou a contribuir cada vez menos para a sua formação.

Mas quanto o Brasil difere da economia mundial?

A Tabela abaixo exibe o grau de industrialização e a evolução do produto manufatureiro real entre 1980 e 2015, período da desindustrialização brasileira, para os Estados Unidos, Mundo, “Mundo sem China” e Brasil. Vale ressaltar que os Estados Unidos são um país de industrialização madura e líder na geração de tecnologias.

Tabela - VAM, 1980-2015 - Mundo, EUA e Brasil

A desindustrialização brasileira foi muito mais expressiva do que nas regiões comparadas na Tabela acima, tanto a preços correntes quanto constantes. A preços correntes, o VAM no PIB diminuiu para as regiões analisadas, em conformidade com a literatura especializada, mas a redução do Brasil foi mais intensa. A preços constantes, o Mundo e os Estados Unidos aumentaram o grau de industrialização, respectivamente, em 10% e 2%, entre 1980 e 2015. Se considerar a desindustrialização do “Mundo sem China” como desindustrialização normal devido a fatores que afetam todos os países (como a globalização), a desindustrialização brasileira é muito anormal, já que a parcela do VAM no PIB do “Mundo sem China”, a preços constantes, teve uma redução de apenas 1% e a do Brasil diminuiu 42%, entre 1980 e 2015 (ver Tabela).

Em síntese, a economia mundial, o “mundo sem China” e os Estados Unidos (assim como vários países) não se desindustrializam desde a década de 1970, pois a manufatura não reduziu sua participação no PIB a preços constantes. O Brasil segue na contramão da economia mundial e apresenta uma trajetória bem nítida de desindustrialização que teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro, conforme abordado no post anterior.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Is deindustrialization a global phenomenon?

Desindustrialização contribuiu negativamente para o desenvolvimento brasileiro

A indústria de transformação foi a carro-chefe do crescimento econômico do Brasil até o 1980. Na etapa de industrialização houve expansão robusta do PIB manufatureiro real, da participação industrial no PIB e do PIB manufatureiro real per capita. No entanto, desde 1981, a indústria perdeu o status de locomotiva do crescimento e entrou em um processo intenso de desindustrialização, contribuindo negativamente para o crescimento do produto per capita do país (ver Gráfico das últimas sete décadas).

Industrialização e desindustrialização da economia brasileira, 1948-2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Grau de industrialização: a indústria de transformação aumentou de 13,8% para 19,8% sua parcela no PIB do Brasil (a preços básicos e constantes de 2018) entre 1948 até 1973 e manteve-se neste patamar até 1980. No entanto, a industrialização foi abordada. Desde 1981, a manufatura cresceu abaixo do restante da economia na maioria dos anos, assim, deixou de ser a locomotiva do crescimento. A partir de 1981, há uma tendência de diminuição acentuada da participação da manufatura no PIB. Isso caracteriza um processo estrutural de desindustrialização. Em 2018, a manufatura representou apenas 11,3% do PIB, nível inferior ao do início da série em 1947.

PIB manufatureiro real: Entre 1947 a 1980, o PIB real manufatureiro multiplicou-se por 15 e o parque industrial brasileiro aumentou muito, conforme exibido pelas barras verticais do Gráfico. Note que o PIB real ficou praticamente estagnado nas décadas de 1980 e 1990. Os voos de galinha apenas recompuseram as perdas nos triênios das crises de 1980-1982 e 1990-1992. Embora o PIB real tenha crescido significativamente de 2000 a 2008, ele reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Portanto, um processo de desindustrialização absoluta pode estar em curso desde 2014.

PIB real manufatureiro per capita: o PIB real da indústria de transformação per capita multiplicou-se por 6,2 entre 1947 e 1980, no período de industrialização (linha vermelha do Gráfico). Até 1980 a industrialização contribuiu positivamente para aumentar a renda per capita do Brasil, consequentemente, para o desenvolvimento do país. Chama atenção que o produto manufatureiro real per capita apresenta tendência de queda desde 1981 e, em 2018, foi 25% inferior ao nível obtido em 1980. Isso tem alargado ainda mais o hiato de renda per capita entre o Brasil e os países desenvolvidos – um processo conhecido como falling behind. Portanto, no período da desindustrialização, entre 1981 e 2018, a taxa de expansão do produto manufatureiro real foi inferior à taxa de crescimento da população brasileira – e menor ainda que a taxa de crescimento da população economicamente ativa (PEA), o que é mais grave –, logo, o PIB manufatureiro real per capita diminuiu (linha vermelha do Gráfico) e, como consequência, a manufatura contribuiu negativamente para o desenvolvimento econômico.

Vale ressaltar que o processo de desenvolvimento requer aumento da renda per capita e melhoria dos indicadores sociais. A melhoria dos indicadores sociais e da qualidade de vida pode ser obtida direta e indiretamente pelo aumento da renda per capita e por outras medidas.

Portanto, o Brasil apresenta uma tendência bem definida de desindustrialização desde 1981. A retração de 25% do produto manufatureiro real per capita desde 1981 indica que a desindustrialização teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro. Na etapa de industrialização, o Brasil se aproximou dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil tem ficado para trás e se afastado ainda mais dos países desenvolvidos na etapa de desindustrialização. O país precisa urgentemente revitalizar seu setor industrial se quiser expandir sua renda per capita mais rapidamente.

Ver estudo completo sobre esse assunto aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization contributed negatively to the Brazilian development