A complexidade estrutural como uma rede de interdependências setoriais

Uma economia moderna é caracterizada por uma rede de setores ou unidades produtivas intrinsecamente ligadas entre si, dependendo crescentemente de insumos intermediários fornecidos por vários setores da economia. A complexidade de uma economia pode ser considerada conceitualmente como o resultado do processo de desenvolvimento que amplia a multiplicidade de interações econômicas dentro do sistema. Essa perspectiva guarda estreita relação com as análises desenvolvidas por autores estruturalistas, como Albert Hirschman, Hollis Chenery, Celso Furtado e Arthur Lewis, por exemplo. Para esses autores, o que caracterizaria o processo de desenvolvimento dos países seria o aumento das interações que ocorrem entre os setores produtivos de uma economia. Em outras palavras, o desenvolvimento econômico seria acompanhado por um aprofundamento na intensidade das interações entre os setores produtivos, e não apenas a alocação de recursos entre esses setores ou a exportação de produtos de alta intensidade tecnológica.

Ao mesmo tempo em que a estrutura produtiva se torna mais complexa do ponto de vista das interdependências setoriais, ocorrem mudanças estruturais nessas economias. A indústria e os serviços ganham uma relevância cada vez maior no produto interno bruto em detrimento das atividades primárias; na pauta exportadora adquire um maior peso os bens manufaturados mais sofisticados do ponto de vista tecnológico; na estrutura da demanda interna ganham maior relevância produtos importados também mais sofisticados. Para os autores estruturalistas, a complexidade estrutural, entendida como um maior nível de interdependência entre os setores seria uma condição necessária, embora não suficiente, para uma transformação na pauta de exportações na direção de bens mais sofisticados tecnologicamente.

O gráfico acima mostra a evolução do índice de complexidade estrutural da economia brasileira entre 2000 e 2014, com base nas matrizes de insumo-produto elaboradas pelo Grupo de Indústria e Competitividade (IE-UFRJ). Como podemos observar, a estrutura produtiva brasileira tornou-se menos complexa nesse período. Isso significa dizer que os circuitos de demanda e oferta de bens intermediários passou a ser atendida de forma crescente por insumos importados. Os resultados são convergentes com uma ampla literatura nacional que aponta para a ocorrência de uma perda de densidade do tecido industrial brasileiro desde a década de 1990. Entre os fatores apontados estão o câmbio valorizado por longos períodos, aumentando a importação de insumos importados, e a falta de uma política industrial e de inovação coerente entre os diversos governos.

Ver mais sobre esse assunto em:

COSTA, K. V. Entre similaridades e diferenças nos padrões de comércio exterior e de estrutura produtiva do Brasil e do México: uma análise multissetorial a partir de matrizes de insumo-produto, 2017. 245 f. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

COSTA, K.V.; CASTILHO, M.; PUCHET, M. Productive structure and the linkage effects in the era of global value chains: na input-output analysis. Revue d’Économie Industrielle, n. 163, n.3, pp. 147-186, 2018.

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Inovação brasileira pode melhorar com cooperação

Empresas inovadoras e não inovadoras da indústria de transformação brasileira, Milene Tessarin, Blog Valor Adicionado

Este post faz um perfil da inovação empresarial da indústria de transformação brasileira para o período entre 2003 e 2014. Neste período, a economia brasileira presenciou um miniciclo de crescimento, no entanto, o esforço inovador manteve-se praticamente inalterado. Ver aqui o estudo completo.

No Brasil, as empresas não inovadoras representaram cerca de dois terços do total de empresas da indústria de transformação, em 2014. Este ano encerrou um miniciclo de crescimento iniciado em 2004. Contudo, no mesmo período, a proporção entre as empresas inovadoras e não inovadoras manteve-se praticamente estável, conforme o Gráfico 1. Essas informações provêm da segunda e da última edição da Pesquisa de Inovação (Pintec) do IBGE.

As empresas inovadoras, que representam um terço do total de empresas, podem ser divididas entre as que cooperaram ou não cooperaram para inovar. Em 2014, de cada 100 empresas da manufatura brasileira: 30,7 inovaram sem cooperação e apenas 5,6 inovaram com cooperação (ver Gráfico 1).

A cooperação faz com que as empresas estejam melhor preparadas para desenvolver projetos inovativos. Ela é definida como a participação ativa da empresa em projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou outros projetos de inovação com outra organização. A cooperação para inovar permite às partes envolvidas ampliar a base de conhecimento, acelerar a inovação, reduzir riscos e incertezas tecnológicas, acessar recursos produtivos e técnicos distantes ou indisponíveis, trocar conhecimentos e tecnologias com outros especialistas e capacitar-se para processos mais eficientes.

Apesar das empresas que não cooperaram serem a maioria esmagadora em número, em termos de receita líquida de vendas e gastos com inovação a situação muda. Em 2014, as empresas que inovaram com cooperação detiveram 46% da receita líquida de vendas do total de empresas e realizaram 62,5% dos gastos com inovação. Já as empresas que inovaram sem cooperar contribuíram com 25,2% da receita líquida de vendas e com 37,5% dos gastos inovativos da indústria brasileira (Ver Gráfico 1). Por sua vez, as empresas não inovadoras detiveram 28,8% da receita líquida de vendas. Como era esperado, quem inova e gasta mais com inovação obtém maior fatia do mercado.

Também pode-se dizer que as empresas que inovaram com cooperação representam uma ilha de excelência no universo empresarial brasileiro, pois um pequeno número de empresas possui grande fatia do mercado e investe pesado em inovação comparativamente às demais empresas do Brasil.

O Gráfico 2 exclui as empresas que não inovaram e apresenta informações apenas sobre as inovadoras – com ou sem relação de cooperação – da indústria de transformação brasileira. Nele as empresas estão divididas por origem do capital controlador e relação de cooperação para inovar.

Empresas inovadoras por origem do capital e por relação de cooperação da indústria de transformação brasileira, Milene Tessarin, Blog Valor Adicionado

A seguir, alguns comentários do Gráfico 2:

  • Origem do capital e cooperação. O crescimento de 10 pontos percentuais no número de empresas inovadoras com cooperação entre 2003 e 2014 deveu-se praticamente todo às empresas de controle nacional.
  • Empresas nacionais que cooperaram – Em 2003, 3,6% das empresas inovadoras nacionais cooperaram, e em 2014 esse número aumentou para 14,1%. Foram essas empresas que realizaram 36% dos gastos com inovação no Brasil em 2014 e detiveram 29,3% da receita líquida de vendas das empresas inovadoras. São as principais responsáveis por realizar cooperação no Brasil.
  • Empresas estrangeiras que cooperaram – Mantiveram a participação em torno de 1% no total das empresas inovadoras que cooperaram em 2003 e em 2014. Elas realizaram 26,6% dos gastos com inovação no país e 25,3% da receita líquida de vendas. Contudo, as empresas estrangeiras que cooperaram apresentaram maior porte médio em relação às demais empresas.
  •  Empresas nacionais sem cooperação – Representam a grande maioria das empresas inovadoras. Após uma redução de 15 pontos percentuais entre 2003 e 2014, elas representam mais de 80% do total de empresas inovadoras. Contudo, realizaram juntas cerca de 30% dos gastos com inovação e um quarto da receita líquida de vendas em 2014.
  • Empresas estrangeiras sem cooperação – É um grupo pequeno entre as empresas inovadoras e que teve uma redução na participação entre 2003 e 2014. Em número de empresas, são menos de 2%, diminuíram seus gastos com inovação de 11,9% para 7,6% e possuem menos de 10% da receita líquida de vendas.
  • Através desse simples perfil, nota-se que as empresas que cooperaram para inovar – sejam elas nacionais ou estrangeiras – tiveram melhores resultados econômicos (market share) e maiores esforços inovativos.

É interessante notar que a estratégia de cooperar para inovar vem sendo crescentemente adotada pelas empresas nacionais. Além do aumento no número de empresas nacionais que inovaram realizando cooperação, a parcela dos gastos destinada por elas à inovação cresceu 12 pontos percentuais entre 2003 e 2014 (Gráfico 2). Em sentido contrário, no mesmo período, as estrangeiras que cooperaram reduziram sua participação em quatro pontos percentuais.

É possível ver por essas evidências empíricas que estimular a cooperação para inovar pode melhorar o desempenho inovativo do Brasil, mais do que direcionar esforços apenas estimular a inovação de forma genérica.

Como a inovação envolve diversas atividades, dentre elas a P&D, treinamento e aquisição de máquinas e equipamentos, o tipo de atividade realizada pode também explicar o motivo de os indicadores brasileiros permanecerem inalterados durante os anos 2000. Em um próximo post – a ser divulgado nesta quinta-feira – irei mostrar que o esforço envolvido nas atividades inovativas se diferencia quando consideramos as empresas que inovam com cooperação ou sem cooperação, o que reforçará o argumento que incentivar a cooperação pode ajudar o Brasil a melhorar seus indicadores inovativos.

Autora: Milene Tessarin

Title in English: Brazilian innovation can improve with cooperation

Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

Matéria do Valor Econômico sobre estudo de Desindustrialização Setorial

Hoje o Jornal Valor Econômico publicou uma excelente matéria sobre o estudo “Desindustrialização Setorial e Estagnação de Longo Prazo da Manufatura Brasileira”, de autoria de Paulo César Morceiro e Joaquim José Martins Guilhoto.

Este estudo já foi tema do Blog Valor Adicionado. Conferir em post 1post 2, e post 3.

A matéria completa do Jornal Valor Econômico pode ser obtida aqui.

Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB , Jornal Valor Econômico, Paulo César Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira - Valor Econômico - Paulo César Morceiro - Nereus- USP

Abertura comercial de Bolsonaro: custos altos e benefícios duvidosos?

A abertura comercial é um tema que sempre frequenta o noticiário brasileiro. Recentemente, tem pipocado notícias de uma nova abertura comercial, por meio da redução unilateral de tarifas de importação, a ser implementada no início do governo Bolsonaro. As informações vão na direção de uma abertura unilateral, universal e rápida, como a que ocorreu, no Brasil, no início da década de 1990. Mas qual seriam os impactos da abertura comercial hoje?

            Os argumentos favoráveis à abertura comercial se acumulam:

  1. Diminuição dos preços dos produtos, em especial de manufaturados, gerando benefícios aos consumidores (sobretudo de menor renda) e empresas produtivas.
  2. Aumento na variedade e na qualidade dos insumos intermediários importados.
  3. Aumento nas importações de bens de capital mais modernos.
  4. Aumento da concorrência, que induz os empresários a serem mais competitivos.
  5. Aumento na produtividade devido aos quatro últimos pontos.
  6. Aumento nas exportações e, consequentemente, no emprego devido aos cinco últimos pontos.

A argumentação é lógica e tem amparo nos estudos de casos de países bem-sucedidos após suas aberturas comerciais. Assim, ao importar insumos intermediários em um mercado competitivo, haveria redução nos custos de produção e acesso a tecnologias de última geração embutidas nos bens de capital e intermediários, além de aumentar as opções de combinações no processo produtivo pela maior variedade de insumos importados. O caso da Embraer deve ser emulado, pois importa quase todos os insumos intermediários e exporta quase toda a produção, dizem os advogados da abertura.

Como a abertura comercial brasileira que está se desenhando assemelha-se a que ocorreu nos anos 90, vamos observar os dados e entender os resultados obtidos naquela época.

Entre 1989 e 1994, as tarifas alfandegárias e as barreiras não-tarifárias brasileiras foram substancialmente diminuídas de forma unilateral – isto é, sem realizar acordos comerciais significativos – e praticamente universal setorialmente. Ou seja, uma abertura comercial abrangente e de forma rápida temporalmente. Os resultados foram parcialmente na direção esperada. Digo parcialmente porque os cinco primeiros pontos mencionados acima ocorreram em alguma medida, mas foi um fracasso generalizado quanto ao sexto e último ponto. Quanto ao quarto ponto acima, a indústria nacional adquiriu competitividade para competir parcialmente no mercado interno contra os produtos importados e não é competitiva nos mercados externos, com raras exceções. Em síntese, houve aumento forte de produtividade comemorado pelos defensores da abertura – embora não tenha se refletido em crescimento do PIB – e queda robusta do emprego, somada a desarticulação de setores intensivos em tecnologia, como temiam alguns críticos da forma como a abertura foi realizada.

O Gráfico 1 exibe que o coeficiente de importação (importações / produção) aumentou bastante em vários setores manufatureiros, sobretudo de maior intensidade tecnológica, porém o coeficiente de exportação (exportações / produção) aumentou num ritmo muito inferior. Esse aumento significativo das importações desarticulou algumas cadeias industriais tecnológicas, sendo informática e eletrônicos o caso mais emblemático.

Variação entre 1980 e 1998 nos coeficientes de abertura comercial do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A Tabela 1 abaixo mostra que a produtividade do trabalho (valor adicionado por trabalhador) aumentou num ritmo forte, mas a um elevado custo social (ver Tabela 1 e Gráfico 2). Entre 1990 e 1998, houve desemprego de 16% da força de trabalho da indústria de transformação, que significou demissão líquida de 1,5 milhão de trabalhadores – a força de trabalho manufatureira diminuiu de 9,1 milhões para 7,6 milhões no período mencionado. Setorialmente, a diminuição do emprego foi generalizada (ver Gráfico 2), com os setores de alta e média-alta tecnologia mais impactados com quase 30% de diminuição do pessoal ocupado.

Variação do emprego industrial entre 1990 e 1998 do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Como se sabe, os trabalhadores desempregados da manufatura não foram alocados em funções melhores em outros setores. Eles foram alocados majoritariamente nos setores de comércio e serviços prestados à família, os quais possuem elevada informalidade, baixa produtividade e salários também baixos. Para resumir, passaram a trabalhar como camelôs, ambulantes, atendentes, cabeleireiros, etc.

Há de se ressaltar que o aumento da produtividade do trabalho nos anos 90 se deu mais em função da diminuição do emprego que do aumento do valor adicionado (ver Tabela 1), especialmente nos setores de alta e média-alta tecnologia. Além disso, esse aumento de produtividade foi de curta duração, pois foi restrito apenas aos anos 90. No século XXI, a produtividade do trabalho da indústria de transformação foi próxima de zero e negativa dependendo do período observado (isso em um período do Real muito apreciado, em que o efeito-preço foi maior que diminuição pretendida das tarifas).

Após averiguar os resultados da abertura comercial dos anos 90, voltamos a questão principal. A abertura comercial do governo Bolsonaro terá os impactos positivos esperados? Ela conseguirá diminuir o preço final dos produtos e melhorar a inserção do Brasil nas principais cadeias globais de valor?

Quanto à diminuição no preço dos produtos: a redução da carga tributária incidente nos produtos industriais será mais efetiva e terá maior impacto nas famílias mais pobres. Os produtores se balizarão em um preço médio (preço de competição) menor, favorecendo inclusive as exportações. Essa redução de impostos se justifica por vários motivos: os impostos sobre os produtos industriais são mais altos no Brasil que nos nossos principais parceiros comerciais; aumentaria a demanda agregada e tiraria a economia do ponto morto decorrente do elevado desemprego e ociosidade produtiva; o país precisa de mais justiça social no consumo. Vale ressaltar que essa diminuição dos impostos poderia ser compensada pelo aumento adicional da demanda e elevação das alíquotas das últimas faixas do imposto de renda, por exemplo.

Quanto à abertura comercial: o Brasil precisa eliminar as assimetrias nas alíquotas de importação, sobretudo nos insumos intermediários que tem tarifas elevadas e até dumping favoráveis a setores oligopolistas, e promover a escalada tarifária que consiste em alíquotas de importação menores para as matérias-primas e insumos básicos e progressivamente maiores para os sistemistas e montadores finais da cadeia produtiva. É aconselhável que a redução da alíquota de importação ocorra dento de acordos comerciais, e não de forma unilateral, pois assim poderá favorecer as exportações brasileiras para os países parceiros. Abrir unilateralmente não promove as exportações, como verificado na década de 90. Quanto ao tempo de implementação, recomenda-se que seja feita paulatinamente (uma duração de 8 a 10 anos) para garantir previsibilidade aos setores produtivos. Abrir em 5 anos como em 1990 provocou vários estragos em cadeias produtivas importantes, com fechamento de unidades fabris e desemprego elevado.

Produtividade, Valor Adicionado e Emprego, Variação percentual anual entre 1990 e 1998, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em síntese, os formuladores de políticas devem se atentar não apenas em importar mais, há sobretudo fatores relevantes do ponto de vista nacional, como ampliar as exportações, simplificar e diminuir a tributação, reduzir os impactos sociais e preservar os segmentos mais tecnológicos.  Certamente, o grau de proteção da economia brasileira é menor que aquele dos anos 80 e o estrago seria menor. Mas vale a pena minorá-los. Em síntese, os ensinamentos da abertura comercial brasileira deixam claro que a redução das alíquotas de importação de forma rápida, profunda, unilateral e universal numa economia que costuma ter câmbio apreciado e volátil pode ter um custo social elevadíssimo, ainda mais num cenário com desemprego acima de 2 dígitos. Além disso, não mudará nosso modelo de crescimento voltado essencialmente ao mercado interno.

Precisamos discutir mais esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Bolsonaro’s trade opening: high costs and dubious benefits?

Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

O conteúdo deste post foi tema do Jornal Valor Econômico (04/fev/2019, página A3) da matéria intitulada Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB.

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

Desindustrialização setorial: setores que mais perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial: setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization reaches low and high technology sectors

Impacto dos preços relativos na desindustrialização e produtividade

Grande parcela da desindustrialização mundial mensurada a preços correntes deve-se à evolução dos preços relativos entre a manufatura e os serviços. William Baumol verificou que os preços dos serviços tendem a crescer acima dos preços manufaturados, principalmente porque a (i) produtividade cresce a uma taxa maior na manufatura do que nos serviços e (ii) os serviços em sua maioria possuem menor grau de comercialização com o exterior. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços devido ao aumento da produtividade e, por outro lado, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para aumentos de preços; enquanto que os serviços sofrem menor influência por esses dois canais de transmissão.

O Gráfico abaixo ilustra a evolução dos preços do setor manufatureiro e do setor de serviços para os Estados Unidos, país que pode ser utilizado como referência para a economia mundial. A partir de 1970 e com maior intensidade desde a década de 1980 o formato das curvas dos índices de preços lembra um jacaré abrindo a boca.

Evolução dos índices de preços da indústria e dos serviços para os Estados Unidos, 1947 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Além do crescimento distinto da produtividade, de um lado, o acirramento da globalização a partir de 1980 contribuiu para controlar a inflação dos produtos manufaturados que são muito comercializáveis. Por outro lado, a dinâmica de crescimento dos preços dos serviços depende mais de fatores internos (pois a maioria deles não são comercializáveis ainda) e dos canais de transmissão a la Baumol.

Certamente, a produção em grande escala pela China e países asiáticos de baixo custo da mão de obra contribuíram significativamente para segurar os preços industriais. Isso teve consequências mundiais no controle da inflação.

Ao comparar longos períodos, nota-se que os serviços tiveram valorização maior que a manufatura. Isso impacta diretamente as parcelas setoriais no PIB e os indicadores de produtividade mensurados a preços correntes. Também impacta o nível da produtividade quando mensurada a preços constantes a depender do ano-base (essa discussão técnica farei em outro post).

Agradeço ao economista Paulo Gala por me instigar a escrever sobre esse assunto.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Impact of relative prices on de-industrialization and productivity