PIB menor devido ao vazamento de demanda para o exterior em 2018

Boca do Jacaré - Vazamento de demanda para o exterior, Brasil, 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em 2018, o PIB do Brasil cresceu apenas 1,1%. Este crescimento teria sido de 1,6% se não fosse a contribuição negativa do setor externo de 0,5 ponto percentual. Em 2018, as importações avançaram 8,5%, num ritmo muito superior ao do PIB da economia e da indústria de transformação.

 A partir de 2005, as importações evoluíram num ritmo muito superior ao da indústria de transformação, conforme exibido no Gráfico acima em formato de “boca do jacaré”. Com isso, ocorre o vazamento de demanda para o exterior, um fenômeno muito conhecido que se manifesta nas economias que perderam competitividade no mercado doméstico para os importados.

Há uma correlação positiva entre o vazamento de demanda para o exterior e a desindustrialização brasileira. A partir de 2005 quando há vazamento de demanda para o exterior a indústria de transformação perde participação no PIB (basta comparar o Gráfico acima com o de baixo).

Indústria de transformação (% no PIB), 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado.jpg

Em 2018, o vazamento de demanda para o exterior tirou meio ponto de crescimento do PIB do Brasil e alguns pontos percentuais de crescimento do PIB da indústria de transformação, pois dois terços das importações são compostas de produtos industriais e as mais significantes altas nas importações foram em produtos manufaturados (refino de petróleo, materiais eletrônicos e equipamentos de comunicação, e vestuário).

Os formuladores de políticas do Brasil precisam se atentar para esse fenômeno do vazamento de demanda e para a perda de competitividade da indústria doméstica. O país poderia ter crescido mais desde 2005 se a boca do jacaré não fosse tão aberta.

Cabe destacar que parte das importações são inelásticas, sobretudo de insumos e componentes tecnológicos que o país não produz ou deixou de produzir conforme o post de anteontem tema do Jornal Valor Econômico (60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes). Porém, o Brasil também está perdendo competitividade para os importados nos produtos acabados que fabrica em território doméstico. Isso é lamentável tendo em vista o elevado desemprego e a enorme capacidade produtiva ociosa do parque fabril.

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Textos acadêmicos sobre vazamento de demanda para o exterior aqui e aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Lower GDP due to leakage of demand to abroad in 2018

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Multinacionais geram pouco desenvolvimento tecnológico no Brasil

As empresas multinacionais têm atuação central na criação de tecnologias e geração de inovações para a economia mundial. Ao observar as maiores empresas inovadoras do mundo, nota-se a presença de grandes multinacionais com estoque de conhecimento acumulado ao longo de várias décadas. Elas também são responsáveis pelo maior volume da atividade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizada no planeta e têm papel importante em propagar a atividade inovativa para além de seus países-sede.

Vamos avaliar a atuação em atividades de P&D das empresas multinacionais norte-americanas dentro e fora dos Estados Unidos (Tabela 1). Os Estados Unidos são o país que mais investem em P&D no planeta e suas multinacionais participam de várias cadeias globais de valor ao redor do mundo. Possivelmente, o “padrão” de atuação das multinacionais estadunidenses deve assemelhar ao das multinacionais dos demais países.

A Tabela 1 mostra que os investimentos em P&D feitos por empresas estadunidenses manufatureiras que atuam dentro dos EUA são bem maiores do que daquelas que atuam fora dele, especialmente nos setores de alta tecnologia.

Pesquisa e Desenvolvimento em % das vendas das multinacionais dos EUA, 2009-2015, Milene Tessarin, Blog Valor AdicionadoNos EUA, em todos os setores manufatureiros, inclusive nos de baixa e média-baixa intensidade tecnológica, as empresas estadunidenses que atuam dentro do país despendem percentual de recursos para P&D muito maior que o registrado fora do país. Para indústria de transformação são 3 vezes mais e chega a 5 vezes na categoria de alta tecnologia. Esses dados mostram que há vantagens e interesses em manter o desenvolvimento tecnológico das empresas domesticamente.

No Brasil, os investimentos em P&D (em percentual das vendas) conduzidos pelas filiais estadunidenses são menores que o feito pela matriz. O percentual investido é menor em todos os setores, sobretudo de alta-tecnologia, categoria que concentra mais esses gastos. Isso significa que os setores manufatureiros no Brasil atuam bem distantes da fronteira tecnológica. Por exemplo, no setor de informática e eletrônicos, que mundialmente possui uma intensidade tecnológica muito elevada (ver post anterior sobre a classificação setorial de intensidade tecnológica), as multinacionais estadunidenses investem no Brasil um percentual das vendas que equivale a um décimo do realizado dentro dos EUA: 1,06% no Brasil contra 9,19% nos Estados Unidos (Tabela 1). Cabe lembrar que há no Brasil a Lei de Informática, a qual concede diversos benefícios tributários e em contrapartida exige etapas mínimas de montagem e que as empresas destinem 5,0% das receitas para atividades de P&D doméstica. Apesar dessa exigência burocrática, as filiais das multinacionais americanas que atuam no Brasil destinam percentual em P&D do faturamento muito inferior, inclusive bem menor do que elas investem em outras partes do mundo (ver coluna fora dos EUA na Tabela 1).

Mesmo nos setores automobilístico e de outros equipamentos de transportes, nos quais há grande presença de filiais estadunidenses em território brasileiro há várias décadas, as filiais americanas gastam apenas 46% do que suas congêneres nos EUA, e também é similar ao percentual investido em outros países hospedeiros. Talvez esse quadro seria diferente se o Brasil tivesse um player de capital nacional, como a Coréia do Sul, que estimulou a criação da Hyundai.

Estudos de caso do setor automotivo brasileiro já mostraram que pesquisa feitas por filiais de multinacionais deste setor estão mais para uma “tropicalização” de tecnologias do que para a geração de inovações. Ou seja, se resumem em adaptar características do mercado doméstico brasileiro às inovações feitas em outros países, como adaptar a resistência de pneus para que suportem as elevadas temperaturas do asfalto brasileiro.

Ao analisar as empresas estrangeiras de todos os setores que atuam no Brasil foi possível conferir que essa “tropicalização” da P&D não é um caso setorial isolado (ver este estudo: Inovação no Brasil por Intensidade Tecnológica: Cooperação e Origem do Capital). Verificou-se que, em geral, as atividades de P&D se baseiam em informações e orientações copiadas de outra empresa do grupo localizada no exterior.

Nestas condições, o investimento tecnológico feito nos países hospedeiros depende majoritariamente da estratégia da matriz. O problema é que o avanço tecnológico do país hospedeiro será ditado pelos interesses de empresas de outras partes do mundo. E é bem provável que o interesse de uma empresa de um setor específico não esteja alinhado com os interesses de desenvolvimento tecnológico nacional.

No entanto, é possível atrair investimentos tecnológicos contundentes através de políticas públicas, por exemplo, com estímulos à transferência de tecnologias, instalação de centros de pesquisa, parcerias com instituições nacionais de desenvolvimento tecnológico, etc. Essa é uma linha que a China vem seguindo e alçando sucesso.

Em resumo, as multinacionais gastam percentual substantivo do faturamento em P&D, sobretudo nos setores mais tecnológicos. No entanto, elas têm perfil de atuação diferente de acordo com o local de atuação, pois o grosso dos investimentos e ciência e tecnologia ainda concentra-se no país sede. Nos países hospedeiros elas realizam uma proporção bem menor do desenvolvimento tecnológico, principalmente em alta e média-alta tecnologia. Afinal, parece que o capital tem nacionalidade quanto o assunto é desenvolvimento tecnológico e geração de inovações.

Autor: Milene Tessarin

Title in English: Multinationals generate little technological development in Brazil

 

Matéria do Valor Econômico sobre estudo de Desindustrialização Setorial

Hoje o Jornal Valor Econômico publicou uma excelente matéria sobre o estudo “Desindustrialização Setorial e Estagnação de Longo Prazo da Manufatura Brasileira”, de autoria de Paulo César Morceiro e Joaquim José Martins Guilhoto.

Este estudo já foi tema do Blog Valor Adicionado. Conferir em post 1post 2, e post 3.

A matéria completa do Jornal Valor Econômico pode ser obtida aqui.

Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB , Jornal Valor Econômico, Paulo César Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira - Valor Econômico - Paulo César Morceiro - Nereus- USP

Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

O conteúdo deste post foi tema do Jornal Valor Econômico (04/fev/2019, página A3) da matéria intitulada Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB.

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

Desindustrialização setorial: setores que mais perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial: setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization reaches low and high technology sectors

A desindustrialização é um fenômeno mundial?

A desindustrialização é uma tendência mundial e afeta todos os países sem distinção? A resposta depende de como se mensura a desindustrialização, se a preços correntes ou a preços constantes. A preços correntes, a manufatura mundial perde participação no PIB desde início da década de 1970, conforme o primeiro Gráfico abaixo. Entretanto, a preços constantes, o mundo não se desindustrializa (ver Gráfico). Na verdade, desde meados dos anos 2000 a parcela da manufatura no PIB a preços constantes aumentou de 16% para 18% do PIB. Ressalta-se que a série a preços constantes elimina a inflação intersetorial e, por isso, é a mais indicada para avaliar mudança estrutural.

Desindustrialização mundial, 1970- 2015, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Será que a China, que industrializou-se num ritmo muito intenso nas últimas décadas e atualmente detém um quarto do parque manufatureiro mundial, influenciou o formato das curvas do primeiro Gráfico? O segundo Gráfico mensura a parcela da manufatura no PIB do “Mundo sem China” como uma proxy da desindustrialização neutra, isto é, sem a influência da China. Note pelo segundo Gráfico que a preços correntes a desindustrialização é ainda mais intensa, no entanto, a preços constantes a parcela da manufatura permanece estável em torno de 16% durante todo o período. Logo, não há desindustrialização do “Mundo sem China”.

Desindustrialização Neutra: desindustrialização do Mundo sem China, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

E o Brasil? Veja o Gráfico abaixo.

Indústria de transformação (% no PIB), Brasil, 1970-2015

O Brasil perdeu participação no PIB a preços correntes e, também, a preços constantes desde a década de 1980, conforme o Gráfico acima.

A literatura internacional (síntese aqui e aqui) de desindustrialização tem identificado desindustrialização mundial apenas quando o VAM no PIB é mensurado a preços correntes devido às mudanças nos preços relativos, pois a inflação da manufatura tem crescido num ritmo muito inferior ao registrado pelo restante da economia. Isso ocorre devido ao crescimento da produtividade ser maior na manufatura que no resto da economia, principalmente no setor de serviços e ao fato de que os serviços, em sua maioria, possuem menor grau de comercialização com o exterior que os produtos manufaturados. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços em virtude do crescimento da produtividade redutora de custos e, por outro, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para repasses de preços; já os serviços sofrem menor influência desses dois canais de transmissão.

Dessa maneira, a desindustrialização a preços correntes deve-se aos preços relativos, ou seja, é um fenômeno monetário com consequências reais. Para estudos de desindustrialização a série mensurada a preços constantes é a que interessa pois ela capta a capacidade de a manufatura influenciar o crescimento do restante da economia, já desconsiderando a inflação intersetorial. Assim, no Brasil, a diminuição da parcela da manufatura no PIB a preços constantes desde início da década de 1980 significa que a manufatura cresceu abaixo do PIB e passou a contribuir cada vez menos para a sua formação.

Mas quanto o Brasil difere da economia mundial?

A Tabela abaixo exibe o grau de industrialização e a evolução do produto manufatureiro real entre 1980 e 2015, período da desindustrialização brasileira, para os Estados Unidos, Mundo, “Mundo sem China” e Brasil. Vale ressaltar que os Estados Unidos são um país de industrialização madura e líder na geração de tecnologias.

Tabela - VAM, 1980-2015 - Mundo, EUA e Brasil

A desindustrialização brasileira foi muito mais expressiva do que nas regiões comparadas na Tabela acima, tanto a preços correntes quanto constantes. A preços correntes, o VAM no PIB diminuiu para as regiões analisadas, em conformidade com a literatura especializada, mas a redução do Brasil foi mais intensa. A preços constantes, o Mundo e os Estados Unidos aumentaram o grau de industrialização, respectivamente, em 10% e 2%, entre 1980 e 2015. Se considerar a desindustrialização do “Mundo sem China” como desindustrialização normal devido a fatores que afetam todos os países (como a globalização), a desindustrialização brasileira é muito anormal, já que a parcela do VAM no PIB do “Mundo sem China”, a preços constantes, teve uma redução de apenas 1% e a do Brasil diminuiu 42%, entre 1980 e 2015 (ver Tabela).

Em síntese, a economia mundial, o “mundo sem China” e os Estados Unidos (assim como vários países) não se desindustrializam desde a década de 1970, pois a manufatura não reduziu sua participação no PIB a preços constantes. O Brasil segue na contramão da economia mundial e apresenta uma trajetória bem nítida de desindustrialização que teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro, conforme abordado no post anterior.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Is deindustrialization a global phenomenon?

Pico da industrialização brasileira e períodos de desindustrialização intensa

Após o pico da industrialização brasileira em 1980 houve dois períodos de desindustrialização intensa, que foram intermediados por um breve momento de manutenção da parcela manufatureira no PIB entre 2000 e 2008. A indústria de transformação não aumentou sua participação no PIB nem no momento mais favorável à sua expansão na primeira década dos 2000’s, período em que houve grande crescimento da demanda doméstica (boom do crédito e do emprego formal, e aumento real do salário mínimo) por bens manufaturados. Certamente, o vazamento de demanda para o exterior na forma de aumento das importações é outra faceta dessa questão. A experiência recente mostrou que políticas que estimulam apenas a demanda agregada não serão suficientes para revitalizar o setor industrial brasileiro, embora sejam imprescindíveis no momento tamanha a ociosidade deste setor.

Pico e qualidade da industrialização brasileira: o auge da industrialização brasileira foi em 1980. Até este ano, o produto manufatureiro real expandiu-se a taxas elevadas. Entre 1947 e 1980, o PIB manufatureiro real multiplicou-se 15 vezes. Ao encerrar o ciclo de industrialização, durante o II PND houve implantação e expansão de segmentos industriais relevantes à matriz de produção doméstica, especialmente de bens intermediários (metalurgia dos não ferrosos, química, petroquímica, fertilizantes, papel e celulose, siderurgia e cimento) e bens de capital (equipamentos de transporte, máquinas e equipamentos mecânicos, elétricos e de comunicações). A industrialização ocorrida até 1980 foi no sentido de implantar setores ausentes e enraizar localmente a produção de insumos e componentes dos setores instalados. O Brasil passou a fabricar produtos e insumos intermediários de praticamente todos os segmentos existentes nos países de industrialização madura, mas não os produzia com a mesma eficiência porque a indústria doméstica era muito protegida, o desenvolvimento tecnológico era fraco e o coeficiente de exportação baixo. O desempenho exportador e a geração de tecnologia pelas empresas brasileiras eram incipientes comparativamente aos países de industrialização madura (Estados Unidos, Japão e Alemanha). Nesse sentido, foi uma industrialização parcial e de qualidade inferior.

Industrialização e desindustrialização do Brasil, 1948 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Períodos de desindustrialização intensa: houve dois períodos de desindustrialização intensa (ver Gráfico). O primeiro, de 1981 a 1999, iniciado com a crise da dívida externa, intermediado com a remoção da proteção pela abertura comercial e finalizado com a reestruturação industrial num ambiente com câmbio sobrevalorizado e juros elevados. O segundo período de 2009 até 2017, inicia-se com a crise internacional de setembro/2008 e seus efeitos imediatos no comércio internacional e nas decisões de investimento, e continuou com a crise político-econômica brasileira após a eleição de 2014, que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nas incertezas políticas desde então.

Nem industrialização nem desindustrialização (2000-2008): entre esses dois períodos de desindustrialização intensa houve um momento favorável a expansão industrial. No entanto, a parcela da manufatura no PIB manteve-se estável entre 2000 e 2008. Note que nem mesmo no período mais favorável ao crescimento industrial desde a década de 1970, em que a demanda por produtos industriais cresceu acima da demanda total, a manufatura aumentou participação no PIB. Um estudo (ver versão resumida publicada em inglês aqui) mostrou que a partir de meados dos anos 2000 ocorreu um significativo vazamento de demanda para o exterior. Apesar de haver demanda robusta nos anos 2000, cerca de 40% dela vazou para o exterior na forma de importações porque a indústria brasileira perdeu competitividade no mercado doméstico para os produtos importados. Isso coloca em dúvida se apenas medidas que estimulem a demanda agregada – como as dos Governos Lula – sejam suficientes para revitalizar a indústria doméstica.

Estudo completo sobre desindustrialização aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Peak of Brazilian industrialization and periods of intense deindustrialization

Desindustrialização contribuiu negativamente para o desenvolvimento brasileiro

A indústria de transformação foi a carro-chefe do crescimento econômico do Brasil até o 1980. Na etapa de industrialização houve expansão robusta do PIB manufatureiro real, da participação industrial no PIB e do PIB manufatureiro real per capita. No entanto, desde 1981, a indústria perdeu o status de locomotiva do crescimento e entrou em um processo intenso de desindustrialização, contribuindo negativamente para o crescimento do produto per capita do país (ver Gráfico das últimas sete décadas).

Industrialização e desindustrialização da economia brasileira, 1948-2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Grau de industrialização: a indústria de transformação aumentou de 13,8% para 19,8% sua parcela no PIB do Brasil (a preços básicos e constantes de 2018) entre 1948 até 1973 e manteve-se neste patamar até 1980. No entanto, a industrialização foi abordada. Desde 1981, a manufatura cresceu abaixo do restante da economia na maioria dos anos, assim, deixou de ser a locomotiva do crescimento. A partir de 1981, há uma tendência de diminuição acentuada da participação da manufatura no PIB. Isso caracteriza um processo estrutural de desindustrialização. Em 2018, a manufatura representou apenas 11,3% do PIB, nível inferior ao do início da série em 1947.

PIB manufatureiro real: Entre 1947 a 1980, o PIB real manufatureiro multiplicou-se por 15 e o parque industrial brasileiro aumentou muito, conforme exibido pelas barras verticais do Gráfico. Note que o PIB real ficou praticamente estagnado nas décadas de 1980 e 1990. Os voos de galinha apenas recompuseram as perdas nos triênios das crises de 1980-1982 e 1990-1992. Embora o PIB real tenha crescido significativamente de 2000 a 2008, ele reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Portanto, um processo de desindustrialização absoluta pode estar em curso desde 2014.

PIB real manufatureiro per capita: o PIB real da indústria de transformação per capita multiplicou-se por 6,2 entre 1947 e 1980, no período de industrialização (linha vermelha do Gráfico). Até 1980 a industrialização contribuiu positivamente para aumentar a renda per capita do Brasil, consequentemente, para o desenvolvimento do país. Chama atenção que o produto manufatureiro real per capita apresenta tendência de queda desde 1981 e, em 2018, foi 25% inferior ao nível obtido em 1980. Isso tem alargado ainda mais o hiato de renda per capita entre o Brasil e os países desenvolvidos – um processo conhecido como falling behind. Portanto, no período da desindustrialização, entre 1981 e 2018, a taxa de expansão do produto manufatureiro real foi inferior à taxa de crescimento da população brasileira – e menor ainda que a taxa de crescimento da população economicamente ativa (PEA), o que é mais grave –, logo, o PIB manufatureiro real per capita diminuiu (linha vermelha do Gráfico) e, como consequência, a manufatura contribuiu negativamente para o desenvolvimento econômico.

Vale ressaltar que o processo de desenvolvimento requer aumento da renda per capita e melhoria dos indicadores sociais. A melhoria dos indicadores sociais e da qualidade de vida pode ser obtida direta e indiretamente pelo aumento da renda per capita e por outras medidas.

Portanto, o Brasil apresenta uma tendência bem definida de desindustrialização desde 1981. A retração de 25% do produto manufatureiro real per capita desde 1981 indica que a desindustrialização teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro. Na etapa de industrialização, o Brasil se aproximou dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil tem ficado para trás e se afastado ainda mais dos países desenvolvidos na etapa de desindustrialização. O país precisa urgentemente revitalizar seu setor industrial se quiser expandir sua renda per capita mais rapidamente.

Ver estudo completo sobre esse assunto aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization contributed negatively to the Brazilian development