Indústria atinge menor nível histórico: 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019

Participação da Indústria de Transformação no PIB, Brasil, 1996 a 2019, trimestral, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A desindustrialização brasileira avança em 2019. A parcela da indústria de transformação contribuiu com apenas 10,4% para a formação do PIB no primeiro trimestre de 2019. Esta é a menor contribuição industrial na série com a metodologia atual do IBGE, divulgada com dados comparáveis desde 1995.

A parcela da manufatura diminuiu de 11,0% para 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019, comparativamente ao 1º Tri de 2018.

O maior percentual obtido foi em 1986, ano em que a manufatura representou 27,3% do PIB na série a preços correntes comparável a metodologia atual do IBGE (Ver post).

Quando se observa a participação da manufatura no PIB a preços constantes do 1º Trimestre de 2019, com ajuste sazonal, a tendência também é de queda (Ver segundo Gráfico). Isso significa que a indústria de transformação tem crescido abaixo do PIB brasileiro, que também cresceu pouco – sobretudo a partir de 2009 quando há uma intensificação da desindustrialização.

Participação da Indústria de Transformação no PIB, Brasil, 1996 a 2019, trimestral, preços constantes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Várias são as causas da desindustrialização que tem se acumulado ao longo dos anos. Na minha entrevista que concedi à TV USP nesta semana abordei uma das principais causas: a fragilidade da indústria brasileira em concorrer na economia doméstica e mundial (exportação) porque inova pouco. A industrialização brasileira – voltada para o mercado interno – não teve uma política industrial bem-sucedida focada na inovação e na exportação, pilares do desenvolvimento bem-sucedido, como tiveram os países desenvolvidos e os países asiáticos mais dinâmicos (Japão, Coreia do Sul e China).

E, desde a década de 1980, não há qualquer planejamento econômico que tenha como foco a transformação estrutural, pois os grandes temas que dominam a ordem do dia desde 1980 são relacionados à Macroeconomia. Questões mais qualitativas e estratégicas para o desenvolvimento são deixadas em segundo plano ou até terceiro plano.

O Brasil está ficando cada vez mais para trás e sua indústria vem perdendo peso no PIB, especialmente a indústria de média-alta e alta-tecnologia. Os setores tecnológicos são extremamente relevantes para elevar a renda per capita no estágio intermediário-baixo de desenvolvimento, onde o Brasil se encontra (ver post sobre desindustrialização setorial). 

Educação de qualidade e investimentos maciços em ciência e tecnologia são os guias seguros para um futuro próspero. A indústria e os serviços de informação, como softwares, são os viabilizadores por desenvolver e difundir a tecnologia e a inovação, além de empregarem mão de obra qualificada que remuneram bem.

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Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial

Imagens de tecidos têxteis esgarçados, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Este post apresenta a ideia / intuição de adensamento produtivo e de esgarçamento do tecido industrial das cadeias produtivas. Estes assuntos serão temas do Blog Valor Adicionado nos próximos meses.

Um segmento industrial está conectado, direta e indiretamente, com diversos segmentos produtivos por meio das relações de compras e vendas de matérias-primas, partes, peças, acessórios, componentes e tecnologias. Desse modo, cada segmento está vinculado a uma rede de fornecedores e subfornecedores entrelaçados entre si. Quanto mais longa a cadeia de fabricação de um produto – por exemplo, um automóvel – maior e mais densa será a teia de ligações intersetoriais. Essa rede produtiva é chamada pelos economistas de tecido industrial ou malha manufatureira. Utiliza-se neste trabalho o termo esgarçamento da indústria têxtil para transmitir a ideia de perda de densidade produtiva. Em outras palavras, se os tecidos têxteis não são usados adequadamente, com o tempo se desfiam e se desintegram, podendo inclusive causar buracos e rompimentos. Nessa situação, o tecido encontra-se esgarçado como ilustrado nas imagens acima.

Num tecido industrial adensado, os produtores domésticos comercializam a maioria dos insumos e componentes entre eles, mantendo, dessa forma, ligações intersetoriais densas. Ao crescer a demanda por um produto, desencadeia-se uma produção adicional de segmentos a ele conectados na rede produtiva, aumentando também o emprego, a massa salarial, o desenvolvimento tecnológico e a arrecadação tributária.

Além da demanda derivada decorrente das interdependências da malha produtiva, na medida em que os segmentos industriais vão se adensando eles geram: i) economias externas a la Marshall para outros segmentos, isto é, transbordamentos e ganhos sinérgicos em termos de tecnologia, mão de obra qualificada, infraestrutura logística e fornecedores especializados; ii) investimentos complementares a la Hirschman; e iii) reduz os custos de produção de produtos novos – processo de descoberta de custos de Hausmann e Rodrik – e propicia a diversificação produtiva. Logo, o esgarçamento dos segmentos industriais provoca efeitos contrários aos mencionados, além da diminuição dos encadeamentos intersetoriais.

Assim, quando se importa a maioria dos insumos e componentes, a rede produtiva fica rarefeita, esburacada ou oca como os tecidos têxteis esgarçados. Uma indústria maquiladora é um exemplo clássico dessa situação, na qual se importam praticamente todos os insumos e componentes comercializáveis, gerando emprego de montagem com salários baixos e pouca contribuição científica e tecnológica para o sistema nacional de inovação.

Há de se diferenciar baixo adensamento produtivo em estágios iniciais de industrialização daquele de economias industrializadas. De um lado, nos estágios iniciais as importações são essenciais para movimentar as plantas industriais recém-instaladas. O mesmo ocorre com a produção de aviões pela Embraer. Apesar de o Brasil produzir aviões há décadas, ele não conseguiu avançar na produção dos componentes principais como turbinas e aviônica. Dessa maneira, as importações podem gerar a condição para se ter um parque industrial. Nesse caso, as importações complementam a produção industrial por incorporar tecnologias de última geração, contribuindo para elevar a competitividade das exportações domésticas. Por outro lado, em economias industrializadas, quando um segmento produtivo muito adensado torna-se rarefeito significa que o tecido industrial deste segmento sofreu um processo esgarçamento, que pode levá-lo à desindustrialização absoluta.

Vale ressaltar que os avanços no adensamento produtivo ocasionaram industrialização em economias retardatárias ao longo dos séculos XIX e XX. O processo inverso, de retrocesso do adensamento em grau intenso pode esgarçar substantivamente o tecido produtivo e ocasionar desindustrialização relativa ou absoluta.

Os termos desadensamento produtivo, rarefação, esvaziamento, desarticulação, fragilização e desintegração, que são largamente utilizados na literatura, possuem o mesmo sentido de esgarçamento. Gosto do termo esgarçamento por ele transmitir a ideia do que vem ocorrendo em algumas cadeias produtivas brasileiras que são relevantes em termos de mão de obra qualifica e desenvolvimento tecnológico.

O adensamento produtivo na globalização atual

Antes da globalização do comércio internacional ganhar grande dimensão, isto é, antes de 1980, adensar as cadeias produtivas era visto como sucesso pelos formuladores de política. No entanto, essa visão mudou, pois hoje o comércio internacional representa parcela relevante da demanda de muitos países.

Atualmente, possuir níveis moderados ou mesmo baixos de adensamento produtivo em alguns segmentos industriais não é visto como fracasso se o país se especializar para exportar. Ou seja, a perda de densidade produtiva é compensada com aumento da produção direcionada às exportações. Assim, por um lado, o país perde capacidade manufatureira com o aumento da importação de insumos intermediários, mas, por outro lado, ganha com o aumento das exportações de produtos acabados. A Alemanha faz isso muito bem, importa bastante insumos e componentes e exporta bastante produtos acabados. No Brasil, raros casos seguem essa dinâmica, sendo a Embraer o caso bem-sucedido mais mencionado.

O capítulo 3 do estudo aplicado ao Brasil mostra que a perda de densidade produtiva em setores de alta e média-alta tecnologia não está sendo compensada com exportações. Portanto, o Brasil não se insere bem nas cadeias globais de valor, pois importa insumos intermediários para produzir produtos acabados comercializados majoritariamente no mercado interno. O país não superou o modelo de industrialização voltado para dentro, porém atualmente com maior conteúdo importado. Voltarei a esse assunto em alguns posts nos próximos meses.

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O assunto deste post foi tema de 2 reportagens do Jornal Valor Econômico:

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Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Productive densification and productive hollowing-out process

Título en español: Proceso de densificación productiva y vaciado del tejido industrial

PIB menor devido ao vazamento de demanda para o exterior em 2018

Boca do Jacaré - Vazamento de demanda para o exterior, Brasil, 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em 2018, o PIB do Brasil cresceu apenas 1,1%. Este crescimento teria sido de 1,6% se não fosse a contribuição negativa do setor externo de 0,5 ponto percentual. Em 2018, as importações avançaram 8,5%, num ritmo muito superior ao do PIB da economia e da indústria de transformação.

 A partir de 2005, as importações evoluíram num ritmo muito superior ao da indústria de transformação, conforme exibido no Gráfico acima em formato de “boca do jacaré”. Com isso, ocorre o vazamento de demanda para o exterior, um fenômeno muito conhecido que se manifesta nas economias que perderam competitividade no mercado doméstico para os importados.

Há uma correlação positiva entre o vazamento de demanda para o exterior e a desindustrialização brasileira. A partir de 2005 quando há vazamento de demanda para o exterior a indústria de transformação perde participação no PIB (basta comparar o Gráfico acima com o de baixo).

Indústria de transformação (% no PIB), 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado.jpg

Em 2018, o vazamento de demanda para o exterior tirou meio ponto de crescimento do PIB do Brasil e alguns pontos percentuais de crescimento do PIB da indústria de transformação, pois dois terços das importações são compostas de produtos industriais e as mais significantes altas nas importações foram em produtos manufaturados (refino de petróleo, materiais eletrônicos e equipamentos de comunicação, e vestuário).

Os formuladores de políticas do Brasil precisam se atentar para esse fenômeno do vazamento de demanda e para a perda de competitividade da indústria doméstica. O país poderia ter crescido mais desde 2005 se a boca do jacaré não fosse tão aberta.

Cabe destacar que parte das importações são inelásticas, sobretudo de insumos e componentes tecnológicos que o país não produz ou deixou de produzir conforme o post de anteontem tema do Jornal Valor Econômico (60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes). Porém, o Brasil também está perdendo competitividade para os importados nos produtos acabados que fabrica em território doméstico. Isso é lamentável tendo em vista o elevado desemprego e a enorme capacidade produtiva ociosa do parque fabril.

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Textos acadêmicos sobre vazamento de demanda para o exterior aqui e aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Lower GDP due to leakage of demand to abroad in 2018

60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes

60 segmentos industriais que mais importaram insumos e componentes, Brasil, Paulo Morceiro do Blog Valor Adicionado

Este post apresenta informações oficiais inéditas de um estudo maior e mais completo que mensurou e avaliou pela primeira vez o grau de adensamento produtivo de todas as 258 classes industriais do Brasil. Hoje o Jornal Valor Econômico (página A3) publicou duas matérias sobre esse assunto:

Ambas as matérias do Valor Econômico se basearam no mapeamento inédito do adensamento produtivo que pode ser acessado em Morceiro (2018). Classe industrial é a desagregação mais detalhada das estatísticas de atividade econômica do Brasil. Ao todo, a indústria de transformação é composta de 258 classes industriais. O Gráfico acima exibe as 60 classes industriais da indústria de transformação brasileira com os maiores coeficientes importados de insumos e componentes comercializáveis (CIICC). Este coeficiente capta as matérias-primas, insumos, partes, peças e componentes para serem utilizados no processo de produção industrial. Quanto o CIICC de um segmento industrial é muito elevado significa que este segmento compra muitos insumos intermediários de fornecedores estrangeiros. As indústrias maquiladoras costumam ter CIICC acima de 75%, nesse caso, predominam operações de montagem intensivas em mão-de-obra de menor qualificação comparativamente aos casos em que ocorre maior transformação industrial.

O Gráfico exibe os segmentos industriais que importaram no mínimo um terço das matérias-primas, insumos, partes, peças e componentes para serem consumidos no processo produtivo. As classes industriais foram agrupadas nos setores manufatureiros a que pertencem para facilitar a visualização. A seguir, alguns comentários analíticos:

  • A indústria de alta e média-alta (AT-MAT) reúne os setores mais tecnológicos da atualidade como informática e eletrônica, farmacêutica e outros equipamentos de transportes (aviação). Dos 60 segmentos industriais detentores das cadeias produtivas mais desarticuladas, exibidos no Gráfico acima, 48 são de AT-MAT. Esses 48 segmentos representam cerca de dois terços da produção industrial brasileira de alta e média-alta tecnologia. Isso significa que o Brasil possui uma dependência tecnológica do exterior de insumos e componentes mais elaborados e sofisticados do ponto de vista da complexidade produtiva em várias indústrias relevantes para o país em termos de potencial tecnológico e emprego de mão de obra qualificada que pagam salários elevados.
  • Os poucos segmentos de baixa e média-baixa tecnologia (BT-MBT) do Gráfico acima tem um peso pequeno na produção industrial nacional de BT-MBT. O Brasil produz a maioria das matérias-primas e dos insumos intermediários intensivos em recursos (minerais, agropecuários e energéticos) consumidos no processo produtivo de BT-MBT.
  • Vale destacar que a maioria dos insumos intermediários importados pelos segmentos de AT-MAT são importações competitivas, isto é, que o país importa porque não possui competitividade em termos de preço ou tecnologia para competir com os fornecedores estrangeiros, ou devido à estratégia das filiais de empresas multinacionais instaladas no país. No entanto, parte expressiva das importações de insumos intermediários de BT-MBT trata-se de importações não-competitivas, isto é, situações em que o país não possui capacidade de produção na quantidade e qualidade demandadas, principalmente devido à escassez de alguns recursos minerais e matérias-primas (como metais preciosos), tipo de clima pouco favorável à produção (caso do trigo), entre outros.
  • No Gráfico acima, várias classes industriais, sobretudo de AT-MAT, produzem bens finais ou insumos intermediários elaborados com cadeias de produção longas. Geralmente, bens finais têm cadeias produtivas mais longas que bens intermediários, dessa maneira, quando as classes de bens finais importam elevado percentual de insumos e componentes, provavelmente reduzem-se (ou extinguem-se) os fornecedores domésticos a sua montante da cadeia de produção. Então, do ponto de vista do adensamento produtivo, a situação é mais grave quando a classe industrial que possui CIICC elevado produz bens mais próximos da ponta final da cadeia produtiva. As três primeiras classes industriais do Gráfico possuem CIICC elevadíssimo, indicando que praticamente inexiste fornecedores nacionais dos componentes principais no Brasil.
  • A avaliação setorial indica que informática, eletrônicos e ópticos; farmacêutica; outros equipamentos de transporte; e química são os setores que possuem coeficientes de insumos intermediários importados muito elevados.
    1. Informática, eletrônicos e ópticos é o mais esgarçado. Das 11 classes do setor, dez estão exibidas no Gráfico, as quais representaram praticamente a produção total do setor. A maioria das classes produzem bens finais, logo, o setor possui cadeias produtivas longas, porém os encadeamentos são fracos devido ao CIICC elevado. Várias classes deste setor importaram mais de 70% dos insumos e componentes comercializáveis. Do ponto de vista do grau da transformação industrial, dois terços do setor de informática, eletrônicos e ópticos não apresentam diferenças significativas de uma indústria maquiladora e o outro terço está bem próximo disso. O emprego do termo indústria maquiladora nesse contexto refere-se apenas aos processos produtivos em que predominam operações de montagem a partir de insumos e componentes importados e uso de mão de obra mais barata do que seria se houvesse maior transformação industrial. O caso brasileiro não é uma maquila típica: é uma maquila reversa, que importa muito e não exporta!
    2. A farmacêutica é o segundo setor mais desarticulado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis. A principal classe, “medicamentos para uso humano”, representa 90% da produção industrial do setor e importou percentual superior a 60% dos insumos intermediários comercializáveis. O país importa, principalmente, o princípio ativo farmoquímicos e adjuvantes farmacotécnicos para a fabricação dos medicamentos por estratégia de suprimento das empresas que priorizam insumos mais elaborados e competitivos do exterior. O princípio ativo é o composto responsável pela ação ou efeito farmacológico do medicamento, sendo o resultado principal da pesquisa científica e tecnológica das empesas farmacêuticas.
    3. Outros equipamentos de transporte é o terceiro setor mais desarticulado. Ele reúne a produção de aeronaves, embarcações navais, motocicletas e equipamentos ferroviários, os quais são essencialmente bens finais. As classes exibidas no Gráfico representam mais de 90% do setor. A classe “aeronaves” importou mais de 90% de todos os insumos e componentes comercializáveis, sendo a classe mais oca da indústria brasileira em 2016. O Brasil possui uma empresa relevante, a Embraer, no segmento de aviação regional. Como são importados os componentes principais, praticamente toda a cadeia de fornecedores dos aviões encontra-se no exterior. Assim, do ponto de vista do adensamento produtivo, a classe “aeronaves” é uma maquila típica que importa insumos e componentes e exporta o bem final. Mas cabe uma ressalva. Geralmente o que caracteriza as maquilas, além do baixo grau de adensamento produtivo, é a utilização de mão de obra de baixa qualificação e remuneração. Nesse aspecto, a Embraer não pode ser considerada uma maquila porque emprega mão de obra de elevada remuneração, já que a montagem de aeronaves envolve protocolos de segurança que exigem profissionais altíssima qualificação. Além disso, ela lidera a sua cadeia produtiva ao desenhar os aviões, gerencia a cadeia de suprimento e comercializa suas aeronaves, tarefas que lhe possibilita capturar uma fatia do valor agregado maior do que seria no caso de uma maquila típica. Entretanto, ao importar os componentes principais, vaza para o exterior grande parte do desenvolvimento científico e tecnológico possível de ser desenvolvido pelos fornecedores dessa classe industrial.
    4. O setor de químico é o quarto mais fragilizado pelas importações competitivas. As classes “defensivos agrícolas”, “adubos e fertilizantes” e “intermediários para fertilizantes” importaram, respectivamente, 70,6%, 69,3% e 55,4% do total dos insumos e componentes comercializáveis e juntas representam cerca de um terço da produção química. O país tem uma dependência externa elevada de fertilizantes químicos, já que importa cerca de 60% dos fertilizantes que consome.
  • Nota-se que os quatro setores, mencionados acima, com baixo grau de adensamento produtivo são extremamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico mundial, sobretudo informática e eletrônicos e a indústria farmacêutica. Nos Estados Unidos, esses quatro setores foram responsáveis por metade dos investimentos empresariais em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Desse modo, o ritmo do desenvolvimento tecnológico mundial depende bastante dos investimentos em P&D desses quatro setores. Além disso, são setores que tem potencial de empregar mão de obra de maior habilidade cognitiva com salários altos, são setores elásticos à renda e possuem elevado dinamismo no comércio internacional. Da mesma forma, o elevado CIICC têm consequências ruins para o desenvolvimento nacional.
  • Há de se alertar que setores importantes em termos tecnológicos, que empregam de mão de obra qualificada e são responsáveis pelo maior volume da produção industrial de média-alta e alta tecnologia possuem CIICC elevado em algumas classes industriais, casos dos setores de máquinas e equipamentos; material e equipamentos elétricos; e automobilística. Esta última preocupa devido à sua extensa cadeia produtiva e ao peso que tem para a economia brasileira. E os dois primeiros, também preocupam pelo elevado percentual de importação de produtos acabados.
  • Vale mencionar que o CIICC capta apenas as importações diretas. Ele não capta as importações indiretas embutidas nos insumos e componentes comprados no Brasil produzidos com insumos importados. Ou seja, o conteúdo importado está, provavelmente, subestimado. Sobre importações indiretas, ver o capítulo 3 do livro de Morceiro (2012).

Em resumo, as empresas brasileiras de várias classes industriais, sobretudo de elevada intensidade tecnológica, importaram um percentual elevado de insumos intermediários comercializáveis. Dessa maneira, as cadeias produtivas que produzem os produtos mais elaborados encontram-se esgarçadas e com encadeamentos intersetoriais fracos. Isso é preocupante para o desenvolvimento socioeconômico nacional em termos de tecnologia, mão de obra, inserção externa e capacidade de suprimento da demanda doméstica.

Proposição de políticas

Embora a proposição de políticas não seja o objetivo deste estudo, os resultados documentados indicam que o uso de políticas industriais bem focalizadas nos segmentos manufatureiros com elevado esgarçamento produtivo pode contribuir para o desenvolvimento tecnológico e melhorar a composição da força de trabalho, pois as classes industriais mais esgarçadas são majoritariamente intensivas em tecnologia e em trabalho qualificado, e muitas delas possuem cadeias produtivas longas. Assim, as políticas futuras deveriam focalizar os incentivos nas classes industriais esgarçadas que o Brasil tem e provavelmente continuará tendo demanda elevada, como as que fornecem insumos químicos destinados à agricultura e as produtoras dos insumos farmacêuticos. Além disso, nas negociações de acordos comerciais, as classes industriais em que as importações de insumos intermediários já são elevadas deveriam receber tratamento diferenciado, levando em conta não transformar segmentos produtivos inteiros numa maquila que não exporta como observado no setor de informática e eletrônicos. Essas recomendações de políticas procuram distinguir as classes industriais a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas e abertura comercial universal. Na verdade, o país precisa de um “coquetel de remédios” para combater a desindustrialização e a perda de competitividade do setor industrial.

Consultar o estudo completo e mais detalhado que fez o mapeamento inédito do adensamento produtivo aqui.

Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

Matéria do Valor Econômico sobre estudo de Desindustrialização Setorial

Hoje o Jornal Valor Econômico publicou uma excelente matéria sobre o estudo “Desindustrialização Setorial e Estagnação de Longo Prazo da Manufatura Brasileira”, de autoria de Paulo César Morceiro e Joaquim José Martins Guilhoto.

Este estudo já foi tema do Blog Valor Adicionado. Conferir em post 1post 2, e post 3.

A matéria completa do Jornal Valor Econômico pode ser obtida aqui.

Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB , Jornal Valor Econômico, Paulo César Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira - Valor Econômico - Paulo César Morceiro - Nereus- USP

Abertura comercial de Bolsonaro: custos altos e benefícios duvidosos?

A abertura comercial é um tema que sempre frequenta o noticiário brasileiro. Recentemente, tem pipocado notícias de uma nova abertura comercial, por meio da redução unilateral de tarifas de importação, a ser implementada no início do governo Bolsonaro. As informações vão na direção de uma abertura unilateral, universal e rápida, como a que ocorreu, no Brasil, no início da década de 1990. Mas qual seriam os impactos da abertura comercial hoje?

            Os argumentos favoráveis à abertura comercial se acumulam:

  1. Diminuição dos preços dos produtos, em especial de manufaturados, gerando benefícios aos consumidores (sobretudo de menor renda) e empresas produtivas.
  2. Aumento na variedade e na qualidade dos insumos intermediários importados.
  3. Aumento nas importações de bens de capital mais modernos.
  4. Aumento da concorrência, que induz os empresários a serem mais competitivos.
  5. Aumento na produtividade devido aos quatro últimos pontos.
  6. Aumento nas exportações e, consequentemente, no emprego devido aos cinco últimos pontos.

A argumentação é lógica e tem amparo nos estudos de casos de países bem-sucedidos após suas aberturas comerciais. Assim, ao importar insumos intermediários em um mercado competitivo, haveria redução nos custos de produção e acesso a tecnologias de última geração embutidas nos bens de capital e intermediários, além de aumentar as opções de combinações no processo produtivo pela maior variedade de insumos importados. O caso da Embraer deve ser emulado, pois importa quase todos os insumos intermediários e exporta quase toda a produção, dizem os advogados da abertura.

Como a abertura comercial brasileira que está se desenhando assemelha-se a que ocorreu nos anos 90, vamos observar os dados e entender os resultados obtidos naquela época.

Entre 1989 e 1994, as tarifas alfandegárias e as barreiras não-tarifárias brasileiras foram substancialmente diminuídas de forma unilateral – isto é, sem realizar acordos comerciais significativos – e praticamente universal setorialmente. Ou seja, uma abertura comercial abrangente e de forma rápida temporalmente. Os resultados foram parcialmente na direção esperada. Digo parcialmente porque os cinco primeiros pontos mencionados acima ocorreram em alguma medida, mas foi um fracasso generalizado quanto ao sexto e último ponto. Quanto ao quarto ponto acima, a indústria nacional adquiriu competitividade para competir parcialmente no mercado interno contra os produtos importados e não é competitiva nos mercados externos, com raras exceções. Em síntese, houve aumento forte de produtividade comemorado pelos defensores da abertura – embora não tenha se refletido em crescimento do PIB – e queda robusta do emprego, somada a desarticulação de setores intensivos em tecnologia, como temiam alguns críticos da forma como a abertura foi realizada.

O Gráfico 1 exibe que o coeficiente de importação (importações / produção) aumentou bastante em vários setores manufatureiros, sobretudo de maior intensidade tecnológica, porém o coeficiente de exportação (exportações / produção) aumentou num ritmo muito inferior. Esse aumento significativo das importações desarticulou algumas cadeias industriais tecnológicas, sendo informática e eletrônicos o caso mais emblemático.

Variação entre 1980 e 1998 nos coeficientes de abertura comercial do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A Tabela 1 abaixo mostra que a produtividade do trabalho (valor adicionado por trabalhador) aumentou num ritmo forte, mas a um elevado custo social (ver Tabela 1 e Gráfico 2). Entre 1990 e 1998, houve desemprego de 16% da força de trabalho da indústria de transformação, que significou demissão líquida de 1,5 milhão de trabalhadores – a força de trabalho manufatureira diminuiu de 9,1 milhões para 7,6 milhões no período mencionado. Setorialmente, a diminuição do emprego foi generalizada (ver Gráfico 2), com os setores de alta e média-alta tecnologia mais impactados com quase 30% de diminuição do pessoal ocupado.

Variação do emprego industrial entre 1990 e 1998 do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Como se sabe, os trabalhadores desempregados da manufatura não foram alocados em funções melhores em outros setores. Eles foram alocados majoritariamente nos setores de comércio e serviços prestados à família, os quais possuem elevada informalidade, baixa produtividade e salários também baixos. Para resumir, passaram a trabalhar como camelôs, ambulantes, atendentes, cabeleireiros, etc.

Há de se ressaltar que o aumento da produtividade do trabalho nos anos 90 se deu mais em função da diminuição do emprego que do aumento do valor adicionado (ver Tabela 1), especialmente nos setores de alta e média-alta tecnologia. Além disso, esse aumento de produtividade foi de curta duração, pois foi restrito apenas aos anos 90. No século XXI, a produtividade do trabalho da indústria de transformação foi próxima de zero e negativa dependendo do período observado (isso em um período do Real muito apreciado, em que o efeito-preço foi maior que diminuição pretendida das tarifas).

Após averiguar os resultados da abertura comercial dos anos 90, voltamos a questão principal. A abertura comercial do governo Bolsonaro terá os impactos positivos esperados? Ela conseguirá diminuir o preço final dos produtos e melhorar a inserção do Brasil nas principais cadeias globais de valor?

Quanto à diminuição no preço dos produtos: a redução da carga tributária incidente nos produtos industriais será mais efetiva e terá maior impacto nas famílias mais pobres. Os produtores se balizarão em um preço médio (preço de competição) menor, favorecendo inclusive as exportações. Essa redução de impostos se justifica por vários motivos: os impostos sobre os produtos industriais são mais altos no Brasil que nos nossos principais parceiros comerciais; aumentaria a demanda agregada e tiraria a economia do ponto morto decorrente do elevado desemprego e ociosidade produtiva; o país precisa de mais justiça social no consumo. Vale ressaltar que essa diminuição dos impostos poderia ser compensada pelo aumento adicional da demanda e elevação das alíquotas das últimas faixas do imposto de renda, por exemplo.

Quanto à abertura comercial: o Brasil precisa eliminar as assimetrias nas alíquotas de importação, sobretudo nos insumos intermediários que tem tarifas elevadas e até dumping favoráveis a setores oligopolistas, e promover a escalada tarifária que consiste em alíquotas de importação menores para as matérias-primas e insumos básicos e progressivamente maiores para os sistemistas e montadores finais da cadeia produtiva. É aconselhável que a redução da alíquota de importação ocorra dento de acordos comerciais, e não de forma unilateral, pois assim poderá favorecer as exportações brasileiras para os países parceiros. Abrir unilateralmente não promove as exportações, como verificado na década de 90. Quanto ao tempo de implementação, recomenda-se que seja feita paulatinamente (uma duração de 8 a 10 anos) para garantir previsibilidade aos setores produtivos. Abrir em 5 anos como em 1990 provocou vários estragos em cadeias produtivas importantes, com fechamento de unidades fabris e desemprego elevado.

Produtividade, Valor Adicionado e Emprego, Variação percentual anual entre 1990 e 1998, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em síntese, os formuladores de políticas devem se atentar não apenas em importar mais, há sobretudo fatores relevantes do ponto de vista nacional, como ampliar as exportações, simplificar e diminuir a tributação, reduzir os impactos sociais e preservar os segmentos mais tecnológicos.  Certamente, o grau de proteção da economia brasileira é menor que aquele dos anos 80 e o estrago seria menor. Mas vale a pena minorá-los. Em síntese, os ensinamentos da abertura comercial brasileira deixam claro que a redução das alíquotas de importação de forma rápida, profunda, unilateral e universal numa economia que costuma ter câmbio apreciado e volátil pode ter um custo social elevadíssimo, ainda mais num cenário com desemprego acima de 2 dígitos. Além disso, não mudará nosso modelo de crescimento voltado essencialmente ao mercado interno.

Precisamos discutir mais esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Bolsonaro’s trade opening: high costs and dubious benefits?