Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

g.1 - setores que mais perderam peso no pib, 1970-2016 okk

G.2 - Setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016 okk.png

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

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Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

g.1 - setores que mais perderam peso no pib, 1970-2016 okk

G.2 - Setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016 okk.png

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Impacto dos preços relativos na desindustrialização e produtividade

Grande parcela da desindustrialização mundial mensurada a preços correntes deve-se à evolução dos preços relativos entre a manufatura e os serviços. William Baumol verificou que os preços dos serviços tendem a crescer acima dos preços manufaturados, principalmente porque a (i) produtividade cresce a uma taxa maior na manufatura do que nos serviços e (ii) os serviços em sua maioria possuem menor grau de comercialização com o exterior. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços devido ao aumento da produtividade e, por outro lado, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para aumentos de preços; enquanto que os serviços sofrem menor influência por esses dois canais de transmissão.

O Gráfico abaixo ilustra a evolução dos preços do setor manufatureiro e do setor de serviços para os Estados Unidos, país que pode ser utilizado como referência para a economia mundial. A partir de 1970 e com maior intensidade desde a década de 1980 o formato das curvas dos índices de preços lembra um jacaré abrindo a boca.

Índices de preços

Além do crescimento distinto da produtividade, de um lado, o acirramento da globalização a partir de 1980 contribuiu para controlar a inflação dos produtos manufaturados que são muito comercializáveis. Por outro lado, a dinâmica de crescimento dos preços dos serviços depende mais de fatores internos (pois a maioria deles não são comercializáveis ainda) e dos canais de transmissão a la Baumol.

Certamente, a produção em grande escala pela China e países asiáticos de baixo custo da mão de obra contribuíram significativamente para segurar os preços industriais. Isso teve consequências mundiais no controle da inflação.

Ao comparar longos períodos, nota-se que os serviços tiveram valorização maior que a manufatura. Isso impacta diretamente as parcelas setoriais no PIB e os indicadores de produtividade mensurados a preços correntes. Também impacta o nível da produtividade quando mensurada a preços constantes a depender do ano-base (essa discussão técnica farei em outro post).

Agradeço ao economista Paulo Gala por me instigar a escrever sobre esse assunto.

A desindustrialização é um fenômeno mundial?

A desindustrialização é uma tendência mundial e afeta todos os países sem distinção? A resposta depende de como se mensura a desindustrialização, se a preços correntes ou a preços constantes. A preços correntes, a manufatura mundial perde participação no PIB desde início da década de 1970, conforme o primeiro Gráfico abaixo. Entretanto, a preços constantes, o mundo não se desindustrializa (ver Gráfico). Na verdade, desde meados dos anos 2000 a parcela da manufatura no PIB a preços constantes aumentou de 16% para 18% do PIB. Ressalta-se que a série a preços constantes elimina a inflação intersetorial e, por isso, é a mais indicada para avaliar mudança estrutural.

Manufatura mundial (% no PIB), 1970- 2015

Será que a China, que industrializou-se num ritmo muito intenso nas últimas décadas e atualmente detém um quarto do parque manufatureiro mundial, influenciou o formato das curvas do primeiro Gráfico? O segundo Gráfico mensura a parcela da manufatura no PIB do “Mundo sem China” como uma proxy da desindustrialização neutra, isto é, sem a influência da China. Note pelo segundo Gráfico que a preços correntes a desindustrialização é ainda mais intensa, no entanto, a preços constantes a parcela da manufatura permanece estável em torno de 16% durante todo o período. Logo, não há desindustrialização do “Mundo sem China”.

Desindustrialização Neutra - manufatura (% no PIB) do Mundo sem China

E o Brasil? Veja o Gráfico abaixo.

Indústria de transformação (% no PIB), Brasil, 1970-2015

O Brasil perdeu participação no PIB a preços correntes e, também, a preços constantes desde a década de 1980, conforme o Gráfico acima.

A literatura internacional (síntese aqui e aqui) de desindustrialização tem identificado desindustrialização mundial apenas quando o VAM no PIB é mensurado a preços correntes devido às mudanças nos preços relativos, pois a inflação da manufatura tem crescido num ritmo muito inferior ao registrado pelo restante da economia. Isso ocorre devido ao crescimento da produtividade ser maior na manufatura que no resto da economia, principalmente no setor de serviços e ao fato de que os serviços, em sua maioria, possuem menor grau de comercialização com o exterior que os produtos manufaturados. Logo, por um lado, a manufatura consegue administrar melhor aumentos de preços em virtude do crescimento da produtividade redutora de custos e, por outro, a pressão competitiva no comércio internacional impõe um teto para repasses de preços; já os serviços sofrem menor influência desses dois canais de transmissão.

Dessa maneira, a desindustrialização a preços correntes deve-se aos preços relativos, ou seja, é um fenômeno monetário com consequências reais. Para estudos de desindustrialização a série mensurada a preços constantes é a que interessa pois ela capta a capacidade de a manufatura influenciar o crescimento do restante da economia, já desconsiderando a inflação intersetorial. Assim, no Brasil, a diminuição da parcela da manufatura no PIB a preços constantes desde início da década de 1980 significa que a manufatura cresceu abaixo do PIB e passou a contribuir cada vez menos para a sua formação.

Mas quanto o Brasil difere da economia mundial?

A Tabela abaixo exibe o grau de industrialização e a evolução do produto manufatureiro real entre 1980 e 2015, período da desindustrialização brasileira, para os Estados Unidos, Mundo, “Mundo sem China” e Brasil. Vale ressaltar que os Estados Unidos são um país de industrialização madura e líder na geração de tecnologias.

Tabela - VAM, 1980-2015 - Mundo, EUA e Brasil

A desindustrialização brasileira foi muito mais expressiva do que nas regiões comparadas na Tabela acima, tanto a preços correntes quanto constantes. A preços correntes, o VAM no PIB diminuiu para as regiões analisadas, em conformidade com a literatura especializada, mas a redução do Brasil foi mais intensa. A preços constantes, o Mundo e os Estados Unidos aumentaram o grau de industrialização, respectivamente, em 10% e 2%, entre 1980 e 2015. Se considerar a desindustrialização do “Mundo sem China” como desindustrialização normal devido a fatores que afetam todos os países (como a globalização), a desindustrialização brasileira é muito anormal, já que a parcela do VAM no PIB do “Mundo sem China”, a preços constantes, teve uma redução de apenas 1% e a do Brasil diminuiu 42%, entre 1980 e 2015 (ver Tabela).

Em síntese, a economia mundial, o “mundo sem China” e os Estados Unidos (assim como vários países) não se desindustrializam desde a década de 1970, pois a manufatura não reduziu sua participação no PIB a preços constantes. O Brasil segue na contramão da economia mundial e apresenta uma trajetória bem nítida de desindustrialização que teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro, conforme abordado no post anterior.

Pico da industrialização brasileira e períodos de desindustrialização intensa

Após o pico da industrialização brasileira em 1980 houve dois períodos de desindustrialização intensa, que foram intermediados por um breve momento de manutenção da parcela manufatureira no PIB entre 2000 e 2008. A indústria de transformação não aumentou sua participação no PIB nem no momento mais favorável à sua expansão na primeira década dos 2000’s, período em que houve grande crescimento da demanda doméstica (boom do crédito e do emprego formal, e aumento real do salário mínimo) por bens manufaturados. Certamente, o vazamento de demanda para o exterior na forma de aumento das importações é outra faceta dessa questão. A experiência recente mostrou que políticas que estimulam apenas a demanda agregada não serão suficientes para revitalizar o setor industrial brasileiro, embora sejam imprescindíveis no momento tamanha a ociosidade deste setor.

Pico e qualidade da industrialização brasileira: o auge da industrialização brasileira foi em 1980. Até este ano, o produto manufatureiro real expandiu-se a taxas elevadas. Entre 1947 e 1980, o PIB manufatureiro real multiplicou-se 15 vezes. Ao encerrar o ciclo de industrialização, durante o II PND houve implantação e expansão de segmentos industriais relevantes à matriz de produção doméstica, especialmente de bens intermediários (metalurgia dos não ferrosos, química, petroquímica, fertilizantes, papel e celulose, siderurgia e cimento) e bens de capital (equipamentos de transporte, máquinas e equipamentos mecânicos, elétricos e de comunicações). A industrialização ocorrida até 1980 foi no sentido de implantar setores ausentes e enraizar localmente a produção de insumos e componentes dos setores instalados. O Brasil passou a fabricar produtos e insumos intermediários de praticamente todos os segmentos existentes nos países de industrialização madura, mas não os produzia com a mesma eficiência porque a indústria doméstica era muito protegida, o desenvolvimento tecnológico era fraco e o coeficiente de exportação baixo. O desempenho exportador e a geração de tecnologia pelas empresas brasileiras eram incipientes comparativamente aos países de industrialização madura (Estados Unidos, Japão e Alemanha). Nesse sentido, foi uma industrialização parcial e de qualidade inferior.

Desindustrialização 1948-2018

Períodos de desindustrialização intensa: houve dois períodos de desindustrialização intensa (ver Gráfico). O primeiro, de 1981 a 1999, iniciado com a crise da dívida externa, intermediado com a remoção da proteção pela abertura comercial e finalizado com a reestruturação industrial num ambiente com câmbio sobrevalorizado e juros elevados. O segundo período de 2009 até 2017, inicia-se com a crise internacional de setembro/2008 e seus efeitos imediatos no comércio internacional e nas decisões de investimento, e continuou com a crise político-econômica brasileira após a eleição de 2014, que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nas incertezas políticas desde então.

Nem industrialização nem desindustrialização (2000-2008): entre esses dois períodos de desindustrialização intensa houve um momento favorável a expansão industrial. No entanto, a parcela da manufatura no PIB manteve-se estável entre 2000 e 2008. Note que nem mesmo no período mais favorável ao crescimento industrial desde a década de 1970, em que a demanda por produtos industriais cresceu acima da demanda total, a manufatura aumentou participação no PIB. Um estudo (ver versão resumida publicada em inglês aqui) mostrou que a partir de meados dos anos 2000 ocorreu um significativo vazamento de demanda para o exterior. Apesar de haver demanda robusta nos anos 2000, cerca de 40% dela vazou para o exterior na forma de importações porque a indústria brasileira perdeu competitividade no mercado doméstico para os produtos importados. Isso coloca em dúvida se apenas medidas que estimulem a demanda agregada – como as dos Governos Lula – sejam suficientes para revitalizar a indústria doméstica.

Desindustrialização contribuiu negativamente para o desenvolvimento brasileiro

A indústria de transformação foi a carro-chefe do crescimento econômico do Brasil até o 1980. Na etapa de industrialização houve expansão robusta do PIB manufatureiro real, da participação industrial no PIB e do PIB manufatureiro real per capita. No entanto, desde 1981, a indústria perdeu o status de locomotiva do crescimento e entrou em um processo intenso de desindustrialização, contribuindo negativamente para o crescimento do produto per capita do país (ver Gráfico das últimas sete décadas).

Desindustrialização 1948-2018

Grau de industrialização: a indústria de transformação aumentou de 13,8% para 19,8% sua parcela no PIB do Brasil (a preços básicos e constantes de 2018) entre 1948 até 1973 e manteve-se neste patamar até 1980. No entanto, a industrialização foi abordada. Desde 1981, a manufatura cresceu abaixo do restante da economia na maioria dos anos, assim, deixou de ser a locomotiva do crescimento. A partir de 1981, há uma tendência de diminuição acentuada da participação da manufatura no PIB. Isso caracteriza um processo estrutural de desindustrialização. Em 2018, a manufatura representou apenas 11,3% do PIB, nível inferior ao do início da série em 1947.

PIB manufatureiro real: Entre 1947 a 1980, o PIB real manufatureiro multiplicou-se por 15 e o parque industrial brasileiro aumentou muito, conforme exibido pelas barras verticais do Gráfico. Note que o PIB real ficou praticamente estagnado nas décadas de 1980 e 1990. Os voos de galinha apenas recompuseram as perdas nos triênios das crises de 1980-1982 e 1990-1992. Embora o PIB real tenha crescido significativamente de 2000 a 2008, ele reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Portanto, um processo de desindustrialização absoluta pode estar em curso desde 2014.

PIB real manufatureiro per capita: o PIB real da indústria de transformação per capita multiplicou-se por 6,2 entre 1947 e 1980, no período de industrialização (linha vermelha do Gráfico). Até 1980 a industrialização contribuiu positivamente para aumentar a renda per capita do Brasil, consequentemente, para o desenvolvimento do país. Chama atenção que o produto manufatureiro real per capita apresenta tendência de queda desde 1981 e, em 2018, foi 25% inferior ao nível obtido em 1980. Isso tem alargado ainda mais o hiato de renda per capita entre o Brasil e os países desenvolvidos – um processo conhecido como falling behind. Portanto, no período da desindustrialização, entre 1981 e 2018, a taxa de expansão do produto manufatureiro real foi inferior à taxa de crescimento da população brasileira – e menor ainda que a taxa de crescimento da população economicamente ativa (PEA), o que é mais grave –, logo, o PIB manufatureiro real per capita diminuiu (linha vermelha do Gráfico) e, como consequência, a manufatura contribuiu negativamente para o desenvolvimento econômico.

Vale ressaltar que o processo de desenvolvimento requer aumento da renda per capita e melhoria dos indicadores sociais. A melhoria dos indicadores sociais e da qualidade de vida pode ser obtida direta e indiretamente pelo aumento da renda per capita e por outras medidas.

Portanto, o Brasil apresenta uma tendência bem definida de desindustrialização desde 1981. A retração de 25% do produto manufatureiro real per capita desde 1981 indica que a desindustrialização teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro. Na etapa de industrialização, o Brasil se aproximou dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil tem ficado para trás e se afastado ainda mais dos países desenvolvidos na etapa de desindustrialização. O país precisa urgentemente revitalizar seu setor industrial se quiser expandir sua renda per capita mais rapidamente.

 

Investimento brasileiro em ciência e tecnologia

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) são o combustível das inovações tecnológicas, as quais afetam o modo como as pessoas vivem e se relacionam. No Brasil, quais setores fazem mais P&D? Indústria, serviços ou agropecuária? Quem apostou no setor público acertou, seguido pela indústria de transformação. Serviços privados e agropecuária investem relativamente menos em P&D, porém não são investimentos marginais (ver Figura).

Em 2013, os investimentos em P&D realizados pela economia brasileira foram de R$ 63,5 bilhões em valores de 2017, que corresponderam a 1,08% do PIB do Brasil. Esse montante está distribuído na Figura pelos setores de atividade em que a P&D foi realizada.

No Brasil, o setor público faz quase 3/5 dos investimentos totais em P&D, divididos entre os setores de educação (universidades), saúde e administração públicas. O IBGE aloca os institutos públicos de pesquisa (IPP) no setor da administração pública. Para elaborar a figura, cerca de 60% da P&D conduzida pela Administração Pública foi realocada para o setor de finalidade da pesquisa, dessa forma, por exemplo, a P&D realizada pela Embrapa e pelos IPP agropecuários estão no setor agropecuário (da mesma forma que a P&D do Instituto Butantan foi alocada no setor de saúde pública e da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais na mineração). Os IPP com finalidade diversa (transversal ou multisetorial) como o IPT e o Inpe foram mantidos na Administração Pública.

A seguir alguns comentários sobre a distribuição da P&D da Figura acima.

  • O setor de educação pública conduziu cerca de um terço dos investimentos em P&D. Consideram-se como investimentos em P&D os salários e demais remunerações dos professores atuantes nos programas de pós-graduação strictu senso reconhecidos pela Capes e as despesas de custeio das universidades, inclusive bolsas de pesquisa dos alunos. Embora as atividades dos professores de pós-graduação incluam ensino, pesquisas com ou sem finalidade comercial e atividades de treinamento, todas elas são consideradas P&D, mesmo que prevaleçam as atividades de ensino. Vale dizer que a forma de contabilizar a P&D do setor de educação é uma prática mundial pautada no Manual Frascati e o Brasil a segue. O leitor atento já percebeu que nem toda a P&D da educação pública é destinada a produzir inovações tecnológicas.
  • A indústria de transformação conduz também cerca de um terço da P&D do país. Os setores manufatureiros de alta e média-alta tecnologia realizaram quase 80% da P&D manufatureira, apesar de representar apenas 1/3 do PIB manufatureiro. Apenas cinco setores do grupo de maior intensidade tecnológica realizaram mais de 50% da P&D manufatureira, a saber: automóveis; informática e eletrônicos; químicos orgânicos, inorgânicos, resinas e elastômeros; outros equipamentos de transporte; e farmoquímicos e farmacêuticos. Interessante notar que todos os dez setores do grupo de maior intensidade tecnológica investiram em P&D mais que qualquer um daqueles 20 pertencentes ao grupo de menor intensidade tecnológica, evidenciando que os recursos para P&D são investidos de modo desigual e concentrados setorialmente. Entre os setores de baixa e média-baixa tecnologia, metalurgia de metais não-ferrosos; siderurgia; borracha e plástico; e refino de petróleo se destacam.
  • Os serviços privados investiram 11,2% da P&D total do Brasil. Apesar de formarem mais de 50% do PIB brasileiro, apenas um número limitado de setores desse grupamento faz P&D de modo contínuo. Quatro setores investiram mais de 80% de toda a P&D, a saber: Engenharia e P&D; serviços de informação; educação privada; e telecomunicações. O primeiro setor mencionado inclui a divisão 72 da CNAE 2.0 denominada “Pesquisa e Desenvolvimento Científico”, a qual inclui os laboratórios das empresas que possuem centros de P&D independentes e os institutos privados de pesquisa como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e Natura Inovação e Tecnologia de Produtos. Dessa maneira, a divisão 72 inclui laboratórios de P&D dos mais variados setores de atividade. Certamente, a pesquisa realizada no laboratório de P&D tem finalidade relacionada ao setor de atuação da empresa, mas os órgãos estatísticos não fazem esse tratamento dos dados, por isso, deve-se ter cuidado ao interpretar essas informações. O segundo setor, desenvolvimento de sistemas e outros serviços de informação, inclui a fabricação de softwares, que é o principal segmento dos serviços privados em montante investido ou em intensidade em P&D da economia mundial. No entanto, no Brasil, ele ainda tem uma performance muito abaixo do potencial. Embora seja dominado por gigantes, como Alphabet (Google), Microsoft, Oracle e SAP, o Brasil possui uma empresa entre os 100 maiores gastos empresariais em P&D do setor de softwares: a TOTVS S.A.

No restante, a maioria dos setores de serviços privados, como comércio e reparação de veículos e motocicletas, restaurantes, hotéis, serviços jurídicos, serviços domésticos, serviços pessoais, segurança privada, entre outros, não fazem P&D de modo sistemático ou não foram localizados investimentos em P&D nas fontes consultadas pelo IBGE. Esses setores não dependem da P&D interna para competir, pois outros fatores são mais relevantes para manterem sua participação no mercado.

  • Na agropecuária foram conduzidos 7,4% dos dispêndios totais em P&D do Brasil. Os agricultores não realizam pesquisa sobre a semente que utilizarão, eles optam por adquiri-la de empresas privadas especializadas (como a Monsanto ou Syngenta) e de institutos públicos de pesquisa. Isso ocorre pela impossibilidade de restringir o acesso a semente por parte dos concorrentes, dado que outro agricultor pode facilmente coletar uma muda e replantá-la, sem contribuir com os custos de seu desenvolvimento. Dessa forma, a agropecuária brasileira beneficia-se da P&D realizada pelos institutos públicos de pesquisa, principalmente Embrapa e alguns institutos estaduais de pesquisa relevantes como o Agronômico de Campinas (IAC) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). A Embrapa é a principal instituição que faz P&D no Brasil, com investimentos da ordem de R$ 3,3 bilhões de 2017 e conta com um grupo de pesquisadores permanentes (em 2013, totalizavam 2.437, dos quais 85% são doutores e pós-doutores). O foco da pesquisa dos institutos públicos concentra-se maciçamente na área agrícola, mas parcela razoável é empregada na pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, conforme exibido no Treemap. Na área agrícola, o esforço de pesquisa mantém o país altamente competitivo internacionalmente, por exemplo, ao ampliar a área plantada para regiões que já foram consideradas inapropriadas para produção agrícola (como o cerrado), adaptar sementes a climas hostis e aumentar da produtividade por hectare plantado.
  • No setor de saúde pública sobressai a P&D realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que desembolsou aproximadamente R$ 1,4 bilhão (valores de 2017) em pesquisas. Os Institutos Butantan, Vital Brazil, Adolfo Lutz e Pasteur são outras importantes instituições que fazem P&D na área da saúde pública. Essas entidades produzem conhecimentos – principalmente relacionados à saúde coletiva de um país tropical não desenvolvido – em doenças como Aids, Chagas, tuberculose, esquistossomose, malária, hanseníase, sarampo, rubéola, meningites, hepatites e vacinas, soros e patógenos de grande interesse social.
  • A indústria extrativa contribui com 4,3% dos investimentos em P&D do país. Duas áreas se destacam. Primeiro, a P&D realizada pelo setor de exploração de petróleo e gás natural, para viabilizar as operações a grandes profundidades no litoral brasileiro feita pela Petrobras. É importante ressaltar que há uma regulação da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) que determina que empresas de extração e produção de petróleo e gás natural invistam 1,0% da receita bruta em atividades de P&D. Segundo, a P&D realizada pela empresa Vale e pelos institutos públicos, especialmente a CPRM e o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem). Desse modo, direta e indiretamente, o Estado estimula a pesquisa na indústria extrativa.
  • Por fim, o setor de energia realizou 1,9% da P&D do país. Nesse setor, o Estado também tem um papel ativo por meio de pesquisas conduzidas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnem) e via regulação do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico do Setor de Energia Elétrica, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que determina que empresas de geração e distribuição de energia destinem 1,0% da receita operacional líquida para este programa, sendo 0,2% a 0,4% do total destinados inteiramente às atividades de P&D.

Em síntese, o Estado tem uma grande participação direta e indireta nos investimentos em P&D do Brasil. Diretamente investe mais da metade da P&D total do país. Indiretamente, o Estado estimula a P&D com financiamentos reembolsáveis e subvenções, e através de regulações setoriais exigindo contrapartidas na forma de P&D no setor de extração de petróleo e gás natural, energia elétrica e informática e eletrônica.

A título de comparação, os países desenvolvidos investem três vezes mais em P&D como proporção do PIB que o Brasil e cerca de três quartos dessa P&D é privada. Diante disso, o baixo investimento em P&D do Brasil como proporção do PIB é mais “culpa” do setor privado que do setor público.

Os setores de serviços privados fazem pouca P&D, com exceção de dois setores intensivos em conhecimentos tecnológicos. Do ponto de vista de geração de tecnologia, a mudança estrutural prematura da economia brasileira em direção ao setor de serviços é bastante preocupante, haja vista que a manufatura é composta pelos setores que mais realizam P&D.

 

Nota:

Definição de P&D: “Pesquisa e desenvolvimento é o trabalho criativo realizado de modo sistemático para aumentar o estoque de conhecimento e usar esse estoque de conhecimento com a finalidade de descobrir ou desenvolver novos produtos, incluindo versões ou qualidades aprimoradas de produtos existentes, ou descobrir ou desenvolver produtos novos ou processos de produção mais eficientes.”