Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

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Desindustrialização contribuiu negativamente para o desenvolvimento brasileiro

A indústria de transformação foi a carro-chefe do crescimento econômico do Brasil até o 1980. Na etapa de industrialização houve expansão robusta do PIB manufatureiro real, da participação industrial no PIB e do PIB manufatureiro real per capita. No entanto, desde 1981, a indústria perdeu o status de locomotiva do crescimento e entrou em um processo intenso de desindustrialização, contribuindo negativamente para o crescimento do produto per capita do país (ver Gráfico das últimas sete décadas).

Industrialização e desindustrialização da economia brasileira, 1948-2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Grau de industrialização: a indústria de transformação aumentou de 13,8% para 19,8% sua parcela no PIB do Brasil (a preços básicos e constantes de 2018) entre 1948 até 1973 e manteve-se neste patamar até 1980. No entanto, a industrialização foi abordada. Desde 1981, a manufatura cresceu abaixo do restante da economia na maioria dos anos, assim, deixou de ser a locomotiva do crescimento. A partir de 1981, há uma tendência de diminuição acentuada da participação da manufatura no PIB. Isso caracteriza um processo estrutural de desindustrialização. Em 2018, a manufatura representou apenas 11,3% do PIB, nível inferior ao do início da série em 1947.

PIB manufatureiro real: Entre 1947 a 1980, o PIB real manufatureiro multiplicou-se por 15 e o parque industrial brasileiro aumentou muito, conforme exibido pelas barras verticais do Gráfico. Note que o PIB real ficou praticamente estagnado nas décadas de 1980 e 1990. Os voos de galinha apenas recompuseram as perdas nos triênios das crises de 1980-1982 e 1990-1992. Embora o PIB real tenha crescido significativamente de 2000 a 2008, ele reduziu-se consideravelmente nos últimos anos. Portanto, um processo de desindustrialização absoluta pode estar em curso desde 2014.

PIB real manufatureiro per capita: o PIB real da indústria de transformação per capita multiplicou-se por 6,2 entre 1947 e 1980, no período de industrialização (linha vermelha do Gráfico). Até 1980 a industrialização contribuiu positivamente para aumentar a renda per capita do Brasil, consequentemente, para o desenvolvimento do país. Chama atenção que o produto manufatureiro real per capita apresenta tendência de queda desde 1981 e, em 2018, foi 25% inferior ao nível obtido em 1980. Isso tem alargado ainda mais o hiato de renda per capita entre o Brasil e os países desenvolvidos – um processo conhecido como falling behind. Portanto, no período da desindustrialização, entre 1981 e 2018, a taxa de expansão do produto manufatureiro real foi inferior à taxa de crescimento da população brasileira – e menor ainda que a taxa de crescimento da população economicamente ativa (PEA), o que é mais grave –, logo, o PIB manufatureiro real per capita diminuiu (linha vermelha do Gráfico) e, como consequência, a manufatura contribuiu negativamente para o desenvolvimento econômico.

Vale ressaltar que o processo de desenvolvimento requer aumento da renda per capita e melhoria dos indicadores sociais. A melhoria dos indicadores sociais e da qualidade de vida pode ser obtida direta e indiretamente pelo aumento da renda per capita e por outras medidas.

Portanto, o Brasil apresenta uma tendência bem definida de desindustrialização desde 1981. A retração de 25% do produto manufatureiro real per capita desde 1981 indica que a desindustrialização teve consequências negativas para o desenvolvimento brasileiro. Na etapa de industrialização, o Brasil se aproximou dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil tem ficado para trás e se afastado ainda mais dos países desenvolvidos na etapa de desindustrialização. O país precisa urgentemente revitalizar seu setor industrial se quiser expandir sua renda per capita mais rapidamente.

Ver estudo completo sobre esse assunto aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization contributed negatively to the Brazilian development