PIB menor devido ao vazamento de demanda para o exterior em 2018

Boca do Jacaré - Vazamento de demanda para o exterior, Brasil, 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Em 2018, o PIB do Brasil cresceu apenas 1,1%. Este crescimento teria sido de 1,6% se não fosse a contribuição negativa do setor externo de 0,5 ponto percentual. Em 2018, as importações avançaram 8,5%, num ritmo muito superior ao do PIB da economia e da indústria de transformação.

 A partir de 2005, as importações evoluíram num ritmo muito superior ao da indústria de transformação, conforme exibido no Gráfico acima em formato de “boca do jacaré”. Com isso, ocorre o vazamento de demanda para o exterior, um fenômeno muito conhecido que se manifesta nas economias que perderam competitividade no mercado doméstico para os importados.

Há uma correlação positiva entre o vazamento de demanda para o exterior e a desindustrialização brasileira. A partir de 2005 quando há vazamento de demanda para o exterior a indústria de transformação perde participação no PIB (basta comparar o Gráfico acima com o de baixo).

Indústria de transformação (% no PIB), 2002 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado.jpg

Em 2018, o vazamento de demanda para o exterior tirou meio ponto de crescimento do PIB do Brasil e alguns pontos percentuais de crescimento do PIB da indústria de transformação, pois dois terços das importações são compostas de produtos industriais e as mais significantes altas nas importações foram em produtos manufaturados (refino de petróleo, materiais eletrônicos e equipamentos de comunicação, e vestuário).

Os formuladores de políticas do Brasil precisam se atentar para esse fenômeno do vazamento de demanda e para a perda de competitividade da indústria doméstica. O país poderia ter crescido mais desde 2005 se a boca do jacaré não fosse tão aberta.

Cabe destacar que parte das importações são inelásticas, sobretudo de insumos e componentes tecnológicos que o país não produz ou deixou de produzir conforme o post de anteontem tema do Jornal Valor Econômico (60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes). Porém, o Brasil também está perdendo competitividade para os importados nos produtos acabados que fabrica em território doméstico. Isso é lamentável tendo em vista o elevado desemprego e a enorme capacidade produtiva ociosa do parque fabril.

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Textos acadêmicos sobre vazamento de demanda para o exterior aqui e aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Lower GDP due to leakage of demand to abroad in 2018

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60 segmentos industriais que mais importam insumos e componentes

60 segmentos industriais que mais importaram insumos e componentes, Brasil, Paulo Morceiro do Blog Valor Adicionado

Este post apresenta informações oficiais inéditas de um estudo maior e mais completo que mensurou e avaliou pela primeira vez o grau de adensamento produtivo de todas as 258 classes industriais do Brasil. Hoje o Jornal Valor Econômico (página A3) publicou duas matérias sobre esse assunto:

Ambas as matérias do Valor Econômico se basearam no mapeamento inédito do adensamento produtivo que pode ser acessado em Morceiro (2018). Classe industrial é a desagregação mais detalhada das estatísticas de atividade econômica do Brasil. Ao todo, a indústria de transformação é composta de 258 classes industriais. O Gráfico acima exibe as 60 classes industriais da indústria de transformação brasileira com os maiores coeficientes importados de insumos e componentes comercializáveis (CIICC). Este coeficiente capta as matérias-primas, insumos, partes, peças e componentes para serem utilizados no processo de produção industrial. Quanto o CIICC de um segmento industrial é muito elevado significa que este segmento compra muitos insumos intermediários de fornecedores estrangeiros. As indústrias maquiladoras costumam ter CIICC acima de 75%, nesse caso, predominam operações de montagem intensivas em mão-de-obra de menor qualificação comparativamente aos casos em que ocorre maior transformação industrial.

O Gráfico exibe os segmentos industriais que importaram no mínimo um terço das matérias-primas, insumos, partes, peças e componentes para serem consumidos no processo produtivo. As classes industriais foram agrupadas nos setores manufatureiros a que pertencem para facilitar a visualização. A seguir, alguns comentários analíticos:

  • A indústria de alta e média-alta (AT-MAT) reúne os setores mais tecnológicos da atualidade como informática e eletrônica, farmacêutica e outros equipamentos de transportes (aviação). Dos 60 segmentos industriais detentores das cadeias produtivas mais desarticuladas, exibidos no Gráfico acima, 48 são de AT-MAT. Esses 48 segmentos representam cerca de dois terços da produção industrial brasileira de alta e média-alta tecnologia. Isso significa que o Brasil possui uma dependência tecnológica do exterior de insumos e componentes mais elaborados e sofisticados do ponto de vista da complexidade produtiva em várias indústrias relevantes para o país em termos de potencial tecnológico e emprego de mão de obra qualificada que pagam salários elevados.
  • Os poucos segmentos de baixa e média-baixa tecnologia (BT-MBT) do Gráfico acima tem um peso pequeno na produção industrial nacional de BT-MBT. O Brasil produz a maioria das matérias-primas e dos insumos intermediários intensivos em recursos (minerais, agropecuários e energéticos) consumidos no processo produtivo de BT-MBT.
  • Vale destacar que a maioria dos insumos intermediários importados pelos segmentos de AT-MAT são importações competitivas, isto é, que o país importa porque não possui competitividade em termos de preço ou tecnologia para competir com os fornecedores estrangeiros, ou devido à estratégia das filiais de empresas multinacionais instaladas no país. No entanto, parte expressiva das importações de insumos intermediários de BT-MBT trata-se de importações não-competitivas, isto é, situações em que o país não possui capacidade de produção na quantidade e qualidade demandadas, principalmente devido à escassez de alguns recursos minerais e matérias-primas (como metais preciosos), tipo de clima pouco favorável à produção (caso do trigo), entre outros.
  • No Gráfico acima, várias classes industriais, sobretudo de AT-MAT, produzem bens finais ou insumos intermediários elaborados com cadeias de produção longas. Geralmente, bens finais têm cadeias produtivas mais longas que bens intermediários, dessa maneira, quando as classes de bens finais importam elevado percentual de insumos e componentes, provavelmente reduzem-se (ou extinguem-se) os fornecedores domésticos a sua montante da cadeia de produção. Então, do ponto de vista do adensamento produtivo, a situação é mais grave quando a classe industrial que possui CIICC elevado produz bens mais próximos da ponta final da cadeia produtiva. As três primeiras classes industriais do Gráfico possuem CIICC elevadíssimo, indicando que praticamente inexiste fornecedores nacionais dos componentes principais no Brasil.
  • A avaliação setorial indica que informática, eletrônicos e ópticos; farmacêutica; outros equipamentos de transporte; e química são os setores que possuem coeficientes de insumos intermediários importados muito elevados.
    1. Informática, eletrônicos e ópticos é o mais esgarçado. Das 11 classes do setor, dez estão exibidas no Gráfico, as quais representaram praticamente a produção total do setor. A maioria das classes produzem bens finais, logo, o setor possui cadeias produtivas longas, porém os encadeamentos são fracos devido ao CIICC elevado. Várias classes deste setor importaram mais de 70% dos insumos e componentes comercializáveis. Do ponto de vista do grau da transformação industrial, dois terços do setor de informática, eletrônicos e ópticos não apresentam diferenças significativas de uma indústria maquiladora e o outro terço está bem próximo disso. O emprego do termo indústria maquiladora nesse contexto refere-se apenas aos processos produtivos em que predominam operações de montagem a partir de insumos e componentes importados e uso de mão de obra mais barata do que seria se houvesse maior transformação industrial. O caso brasileiro não é uma maquila típica: é uma maquila reversa, que importa muito e não exporta!
    2. A farmacêutica é o segundo setor mais desarticulado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis. A principal classe, “medicamentos para uso humano”, representa 90% da produção industrial do setor e importou percentual superior a 60% dos insumos intermediários comercializáveis. O país importa, principalmente, o princípio ativo farmoquímicos e adjuvantes farmacotécnicos para a fabricação dos medicamentos por estratégia de suprimento das empresas que priorizam insumos mais elaborados e competitivos do exterior. O princípio ativo é o composto responsável pela ação ou efeito farmacológico do medicamento, sendo o resultado principal da pesquisa científica e tecnológica das empesas farmacêuticas.
    3. Outros equipamentos de transporte é o terceiro setor mais desarticulado. Ele reúne a produção de aeronaves, embarcações navais, motocicletas e equipamentos ferroviários, os quais são essencialmente bens finais. As classes exibidas no Gráfico representam mais de 90% do setor. A classe “aeronaves” importou mais de 90% de todos os insumos e componentes comercializáveis, sendo a classe mais oca da indústria brasileira em 2016. O Brasil possui uma empresa relevante, a Embraer, no segmento de aviação regional. Como são importados os componentes principais, praticamente toda a cadeia de fornecedores dos aviões encontra-se no exterior. Assim, do ponto de vista do adensamento produtivo, a classe “aeronaves” é uma maquila típica que importa insumos e componentes e exporta o bem final. Mas cabe uma ressalva. Geralmente o que caracteriza as maquilas, além do baixo grau de adensamento produtivo, é a utilização de mão de obra de baixa qualificação e remuneração. Nesse aspecto, a Embraer não pode ser considerada uma maquila porque emprega mão de obra de elevada remuneração, já que a montagem de aeronaves envolve protocolos de segurança que exigem profissionais altíssima qualificação. Além disso, ela lidera a sua cadeia produtiva ao desenhar os aviões, gerencia a cadeia de suprimento e comercializa suas aeronaves, tarefas que lhe possibilita capturar uma fatia do valor agregado maior do que seria no caso de uma maquila típica. Entretanto, ao importar os componentes principais, vaza para o exterior grande parte do desenvolvimento científico e tecnológico possível de ser desenvolvido pelos fornecedores dessa classe industrial.
    4. O setor de químico é o quarto mais fragilizado pelas importações competitivas. As classes “defensivos agrícolas”, “adubos e fertilizantes” e “intermediários para fertilizantes” importaram, respectivamente, 70,6%, 69,3% e 55,4% do total dos insumos e componentes comercializáveis e juntas representam cerca de um terço da produção química. O país tem uma dependência externa elevada de fertilizantes químicos, já que importa cerca de 60% dos fertilizantes que consome.
  • Nota-se que os quatro setores, mencionados acima, com baixo grau de adensamento produtivo são extremamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico mundial, sobretudo informática e eletrônicos e a indústria farmacêutica. Nos Estados Unidos, esses quatro setores foram responsáveis por metade dos investimentos empresariais em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Desse modo, o ritmo do desenvolvimento tecnológico mundial depende bastante dos investimentos em P&D desses quatro setores. Além disso, são setores que tem potencial de empregar mão de obra de maior habilidade cognitiva com salários altos, são setores elásticos à renda e possuem elevado dinamismo no comércio internacional. Da mesma forma, o elevado CIICC têm consequências ruins para o desenvolvimento nacional.
  • Há de se alertar que setores importantes em termos tecnológicos, que empregam de mão de obra qualificada e são responsáveis pelo maior volume da produção industrial de média-alta e alta tecnologia possuem CIICC elevado em algumas classes industriais, casos dos setores de máquinas e equipamentos; material e equipamentos elétricos; e automobilística. Esta última preocupa devido à sua extensa cadeia produtiva e ao peso que tem para a economia brasileira. E os dois primeiros, também preocupam pelo elevado percentual de importação de produtos acabados.
  • Vale mencionar que o CIICC capta apenas as importações diretas. Ele não capta as importações indiretas embutidas nos insumos e componentes comprados no Brasil produzidos com insumos importados. Ou seja, o conteúdo importado está, provavelmente, subestimado. Sobre importações indiretas, ver o capítulo 3 do livro de Morceiro (2012).

Em resumo, as empresas brasileiras de várias classes industriais, sobretudo de elevada intensidade tecnológica, importaram um percentual elevado de insumos intermediários comercializáveis. Dessa maneira, as cadeias produtivas que produzem os produtos mais elaborados encontram-se esgarçadas e com encadeamentos intersetoriais fracos. Isso é preocupante para o desenvolvimento socioeconômico nacional em termos de tecnologia, mão de obra, inserção externa e capacidade de suprimento da demanda doméstica.

Proposição de políticas

Embora a proposição de políticas não seja o objetivo deste estudo, os resultados documentados indicam que o uso de políticas industriais bem focalizadas nos segmentos manufatureiros com elevado esgarçamento produtivo pode contribuir para o desenvolvimento tecnológico e melhorar a composição da força de trabalho, pois as classes industriais mais esgarçadas são majoritariamente intensivas em tecnologia e em trabalho qualificado, e muitas delas possuem cadeias produtivas longas. Assim, as políticas futuras deveriam focalizar os incentivos nas classes industriais esgarçadas que o Brasil tem e provavelmente continuará tendo demanda elevada, como as que fornecem insumos químicos destinados à agricultura e as produtoras dos insumos farmacêuticos. Além disso, nas negociações de acordos comerciais, as classes industriais em que as importações de insumos intermediários já são elevadas deveriam receber tratamento diferenciado, levando em conta não transformar segmentos produtivos inteiros numa maquila que não exporta como observado no setor de informática e eletrônicos. Essas recomendações de políticas procuram distinguir as classes industriais a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas e abertura comercial universal. Na verdade, o país precisa de um “coquetel de remédios” para combater a desindustrialização e a perda de competitividade do setor industrial.

Consultar o estudo completo e mais detalhado que fez o mapeamento inédito do adensamento produtivo aqui.

Desindustrialização segue intensa em 2018

Participação da industria brasileira no PIB, 1947 a 2018, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A economia brasileira se desindustrializa com grande intensidade desde a década de 1980. Sendo o setor industrial estratégico do ponto de vista de (i) geração e difusão de novas tecnologias; (ii) encadeamento intersetorial; (iii) potencial de crescimento da produtividade via economias de escala e penetração do progresso técnico; (iv) desenvolvimento regional; (v) contribuição ao balanço de pagamentos; entre outros fatores, a desindustrialização tem estimulado um debate fértil no país. Economistas alegam que o Brasil ainda não atingiu um nível de renda per capita elevado – atualmente de US$ 20 mil em Paridade Poder de Compra – no qual ocorre a transição do setor industrial para o de serviços modernos e intensivos em conhecimento, como os indispensáveis serviços de informação e comunicação. Por isso, o Brasil se desindustrializa prematuramente.

Hoje o IBGE divulgou dados consolidados referentes ao ano passado. Em 2018, a indústria de transformação contribuiu com apenas 11,3% do PIB do Brasil, sendo este o menor percentual de toda a série histórica, a preços correntes, iniciada em 1947 (ver Gráfico). Este Gráfico apresenta a série de longo prazo da desindustrialização brasileira já padronizada e ajustada para a metodologia atual do IBGE. A padronização “corrigiu” as quebras que surgiram com as mudanças metodológicas e o problema causado pelo dummy financeiro, conforme o estudo Influência metodológica na desindustrialização brasileira e correções na composição setorial do PIB.

Entre 2017 e 2018, a indústria de transformação perdeu 0,94 ponto percentual de peso na formação do PIB. Para cada R$ 10,00 de riqueza criada em 2018, apenas R$ 1,13 foi gerada na manufatura. Na China, país de renda per capita similar à brasileira, de cada 10 unidades monetárias, 3 originaram-se na manufatura. A indústria brasileira caminha para um percentual do PIB inferior a dois dígitos, algo que poderá acontecer nos próximos dois anos se a tendência de desindustrialização em curso continuar.

Ao se observar as últimas quatro décadas verifica-se, de um lado, que os setores manufatureiros tecnológicos perderam peso no PIB e, de outro lado, que os setores de serviços intensivos no uso de mão de obra pouco qualificada e de baixa produtividade ganharam bastante peso. O tecido produtivo do Brasil perdeu qualidade para os setores de baixo dinamismo tecnológico e de pobre potencial de crescimento. Com isso, o Brasil segue uma mudança estrutural perversa que armadilha o país numa trajetória de crescimento baixo e irregular.

Países que possuem o setor industrial expressivo, como a China, Coreia do Sul e alguns países asiáticos e do leste europeu, têm tido uma performance de PIB muito superior à brasileira.

Qual é o remédio para combater a desindustrialização prematura?

A resposta dessa pergunta será tema de outros posts. Não se procura aqui esgotar o tema. Grosso modo, o país precisa não de um medicamento só como defendem alguns economistas com grande espaço no debate público, sobretudo que argumentam sobre a taxa de câmbio.

Acredito que o Brasil precisa de um potente coquetel de medicamentos para combater esse fenômeno tão complexo que é a desindustrialização prematura do século XXI. A combinação de medicamentos certos pode frear a desindustrialização e dependendo da dosagem pode até colocar o Brasil nos trilhos de uma virtuosa trajetória continuada de crescimento com reindustrialização. O coquetel deverá ser constituído por remédios principais e auxiliares. Os principais são: planejamento de médio prazo; câmbio ligeiramente depreciado; política industrial moderna; investimento público; reforma tributária; acordos comerciais que visem aumentar o coeficiente de exportação; e política educacional que melhore substantivamente a qualidade da educação.

Sem o coquetel da desindustrialização o Brasil continuará perdendo terreno no comércio internacional e ficará mais uma vez de fora da revolução tecnológica. O Brasil parou na indústria 2.0 enquanto o mundo caminha a passos largos para a nova revolução chamada de Indústria 4.0.

Vale lembrar que a China utiliza um poderoso coquetel da industrialização que tem resultados excelentes em termos de crescimento e transformação estrutural. Atualmente, a China produz um 1 de cada 4 produtos manufaturados do planeta, lidera o volume comercializado mundialmente e este país está disputando com os Estados Unidos a liderança em algumas áreas tecnológicas.

Será que sem um coquetel poderoso o Brasil conseguirá competir com a China nos mercados internacionais e no mercado doméstico? Ressalta-se que a China possui (i) uma taxa de câmbio favorável; (ii) política industrial robusta e agressiva; (iii) enormes economias de escala; (iv) pesados investimentos públicos em infraestrutura; (v) planejamento de médio prazo; entre outros fatores benéficos ao desenvolvimento chinês.

Voltarei a esse assunto!

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Desindustrialization follows intense in 2018

Multinacionais geram pouco desenvolvimento tecnológico no Brasil

As empresas multinacionais têm atuação central na criação de tecnologias e geração de inovações para a economia mundial. Ao observar as maiores empresas inovadoras do mundo, nota-se a presença de grandes multinacionais com estoque de conhecimento acumulado ao longo de várias décadas. Elas também são responsáveis pelo maior volume da atividade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizada no planeta e têm papel importante em propagar a atividade inovativa para além de seus países-sede.

Vamos avaliar a atuação em atividades de P&D das empresas multinacionais norte-americanas dentro e fora dos Estados Unidos (Tabela 1). Os Estados Unidos são o país que mais investem em P&D no planeta e suas multinacionais participam de várias cadeias globais de valor ao redor do mundo. Possivelmente, o “padrão” de atuação das multinacionais estadunidenses deve assemelhar ao das multinacionais dos demais países.

A Tabela 1 mostra que os investimentos em P&D feitos por empresas estadunidenses manufatureiras que atuam dentro dos EUA são bem maiores do que daquelas que atuam fora dele, especialmente nos setores de alta tecnologia.

Pesquisa e Desenvolvimento em % das vendas das multinacionais dos EUA, 2009-2015, Milene Tessarin, Blog Valor AdicionadoNos EUA, em todos os setores manufatureiros, inclusive nos de baixa e média-baixa intensidade tecnológica, as empresas estadunidenses que atuam dentro do país despendem percentual de recursos para P&D muito maior que o registrado fora do país. Para indústria de transformação são 3 vezes mais e chega a 5 vezes na categoria de alta tecnologia. Esses dados mostram que há vantagens e interesses em manter o desenvolvimento tecnológico das empresas domesticamente.

No Brasil, os investimentos em P&D (em percentual das vendas) conduzidos pelas filiais estadunidenses são menores que o feito pela matriz. O percentual investido é menor em todos os setores, sobretudo de alta-tecnologia, categoria que concentra mais esses gastos. Isso significa que os setores manufatureiros no Brasil atuam bem distantes da fronteira tecnológica. Por exemplo, no setor de informática e eletrônicos, que mundialmente possui uma intensidade tecnológica muito elevada (ver post anterior sobre a classificação setorial de intensidade tecnológica), as multinacionais estadunidenses investem no Brasil um percentual das vendas que equivale a um décimo do realizado dentro dos EUA: 1,06% no Brasil contra 9,19% nos Estados Unidos (Tabela 1). Cabe lembrar que há no Brasil a Lei de Informática, a qual concede diversos benefícios tributários e em contrapartida exige etapas mínimas de montagem e que as empresas destinem 5,0% das receitas para atividades de P&D doméstica. Apesar dessa exigência burocrática, as filiais das multinacionais americanas que atuam no Brasil destinam percentual em P&D do faturamento muito inferior, inclusive bem menor do que elas investem em outras partes do mundo (ver coluna fora dos EUA na Tabela 1).

Mesmo nos setores automobilístico e de outros equipamentos de transportes, nos quais há grande presença de filiais estadunidenses em território brasileiro há várias décadas, as filiais americanas gastam apenas 46% do que suas congêneres nos EUA, e também é similar ao percentual investido em outros países hospedeiros. Talvez esse quadro seria diferente se o Brasil tivesse um player de capital nacional, como a Coréia do Sul, que estimulou a criação da Hyundai.

Estudos de caso do setor automotivo brasileiro já mostraram que pesquisa feitas por filiais de multinacionais deste setor estão mais para uma “tropicalização” de tecnologias do que para a geração de inovações. Ou seja, se resumem em adaptar características do mercado doméstico brasileiro às inovações feitas em outros países, como adaptar a resistência de pneus para que suportem as elevadas temperaturas do asfalto brasileiro.

Ao analisar as empresas estrangeiras de todos os setores que atuam no Brasil foi possível conferir que essa “tropicalização” da P&D não é um caso setorial isolado (ver este estudo: Inovação no Brasil por Intensidade Tecnológica: Cooperação e Origem do Capital). Verificou-se que, em geral, as atividades de P&D se baseiam em informações e orientações copiadas de outra empresa do grupo localizada no exterior.

Nestas condições, o investimento tecnológico feito nos países hospedeiros depende majoritariamente da estratégia da matriz. O problema é que o avanço tecnológico do país hospedeiro será ditado pelos interesses de empresas de outras partes do mundo. E é bem provável que o interesse de uma empresa de um setor específico não esteja alinhado com os interesses de desenvolvimento tecnológico nacional.

No entanto, é possível atrair investimentos tecnológicos contundentes através de políticas públicas, por exemplo, com estímulos à transferência de tecnologias, instalação de centros de pesquisa, parcerias com instituições nacionais de desenvolvimento tecnológico, etc. Essa é uma linha que a China vem seguindo e alçando sucesso.

Em resumo, as multinacionais gastam percentual substantivo do faturamento em P&D, sobretudo nos setores mais tecnológicos. No entanto, elas têm perfil de atuação diferente de acordo com o local de atuação, pois o grosso dos investimentos e ciência e tecnologia ainda concentra-se no país sede. Nos países hospedeiros elas realizam uma proporção bem menor do desenvolvimento tecnológico, principalmente em alta e média-alta tecnologia. Afinal, parece que o capital tem nacionalidade quanto o assunto é desenvolvimento tecnológico e geração de inovações.

Autor: Milene Tessarin

Title in English: Multinationals generate little technological development in Brazil

 

Matéria do Valor Econômico sobre estudo de Desindustrialização Setorial

Hoje o Jornal Valor Econômico publicou uma excelente matéria sobre o estudo “Desindustrialização Setorial e Estagnação de Longo Prazo da Manufatura Brasileira”, de autoria de Paulo César Morceiro e Joaquim José Martins Guilhoto.

Este estudo já foi tema do Blog Valor Adicionado. Conferir em post 1post 2, e post 3.

A matéria completa do Jornal Valor Econômico pode ser obtida aqui.

Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB , Jornal Valor Econômico, Paulo César Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira - Valor Econômico - Paulo César Morceiro - Nereus- USP

Hiato de renda per capita aumenta na desindustrialização

Catching-up e falling behind: Pib per capita do Brasil dividido pelo dos Estados Unidos, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desenvolvimento é o melhoramento do padrão de vida. Logo, desenvolvimento elevado é atingir padrão de vida elevado. O padrão americano é emulado mundo afora e utilizado como referência entre os economistas. Mas para ter padrão de vida americano é preciso produtividade e renda per capita elevadas.

E como evoluiu o padrão de vida brasileiro relativamente ao país de referência? O Gráfico 1 acima, em formato de chapéu de bruxa, mostra que de 1950 até 1980, no período de industrialização, o Brasil se aproximou do padrão de vida americano ao reduzir o hiato de renda per capita com os Estados Unidos. No entanto, desde 1981 a 2018, período de desindustrialização, o hiato de renda per capita alargou-se. Todo o progresso obtido até 1980 foi perdido.  Hoje, a renda per capita do Brasil é um quarto da americana, como em 1950.

Nos períodos de industrialização – Plano de Metas de JK, Milagre Econômico e II PND – houve encurtamento do hiato (Gráfico 1), e durante os períodos de desindustrialização, houve alargamento. Observe que o hiato reduziu-se pouco entre 2005 a 2013, período em que tivemos crescimento industrial moderado devido a vários fatores favoráveis conforme abordado na seção 3 deste estudo.

Relativamente, o Brasil está parado no tempo. O progresso no seu processo de catching-up (emparelhamento) não foi continuado e o país acabou ficando para trás (falling behind). Comparado aos países asiáticos – como a Coréia do Sul que em 1950 tinha renda per capita inferior à brasileira – o Brasil fracassou. Fracassou quando implementou políticas ortodoxas ou heterodoxas, sem distinção. Os formuladores de políticas precisam ser mais criativos e originais se desejarem fazer o processo de catching up mais rapidamente para melhorar o padrão de vida de milhões de pessoas que dependem da renda para obter satisfação, seja para consumo de bens básicos, saúde, educação ou diversão.

Pib real da manufatura per capita do Brasil e dos Estados Unidos, 1980 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

O Gráfico 2 acima mostra que o péssimo desempenho da manufatura brasileira, que teve evolução negativa do produto manufatureiro per capita desde 1981, contribuiu sobremaneira para o alargamento do hiato de renda per capita. O PIB manufatureiro per capita do Brasil reduziu 26% entre 1980 e 2017, enquanto o americano aumentou 81% (Graf. 2). Por isso considera-se que a desindustrialização brasileira foi prematura e a americana não. A manufatura dos Estados Unidos contribuiu positivamente para o aumento da renda per capita no mesmo ritmo que a economia total, porém a manufatura brasileira evoluiu muito abaixo da economia total (Ver Gráficos 2 e 3). Dessa maneira, do ponto de vista setorial, o hiato de renda per capita brasileiro alargou-se após 1981 e retrocedeu para níveis da década de 50 devido principalmente à desindustrialização, pois a indústria brasileira teve crescimento per capita negativo!

Pib real per capita do Brasil e dos Estados Unidos, 1980 a 2017, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Portanto, ocorre uma retração de longo prazo do produto manufatureiro real per capita desde 1981 e, consequentemente, aumento significativo do hiato de renda per capita em comparação com os países desenvolvidos. Se considerar a renda per capita como uma proxy do desenvolvimento, a desindustrialização brasileira contribuiu negativamente para o desenvolvimento do Brasil conforme assunto deste post e estudo.

Se a desindustrialização continuar, ao que tudo indica, o hiato de renda per capita irá aumentar e o padrão de vida brasileiro diminuirá relativamente ao resto do mundo.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Per capita income gap increases during deindustrialization

Desindustrialização atinge setores de baixa e alta tecnologia

O conteúdo deste post foi tema do Jornal Valor Econômico (04/fev/2019, página A3) da matéria intitulada Indústria de alta tecnologia perde 40% de peso no PIB.

No Brasil, os diagnósticos de desindustrialização e proposições de políticas se concentram na manufatura agregada e a observa de modo homogêneo, isto é, desconsideram as marcantes heterogeneidades entre os setores manufatureiros.

Entretanto, será que todos os setores da manufatura brasileira perderam participação no PIB? Ou a diminuição foi concentrada setorialmente? Há algum setor que não teve desindustrialização? Os setores manufatureiros desindustrializaram no mesmo período da manufatura agregada? Os setores mais desindustrializados são de alta ou baixa intensidade tecnológica?

Para responder essas questões há a necessidade de uma abordagem setorial da desindustrialização, que se justifica porque os setores manufatureiros divergem em termos de: i) tecnologia, seja na produção ou no uso de inovações; ii) elasticidade-renda da demanda; iii) dinamismo no comércio internacional; iv) ligações intersetoriais; v) insumos utilizados no processo produtivo; vi) intensidade em capital; vii) intensidade em trabalho qualificado e não qualificado; viii) grau de montagem; ix) grau de comercialização com o exterior; e x) sensibilidade à taxa de câmbio. Logo, os indicadores de desindustrialização podem sofrer variações distintas entre os setores manufatureiros, não necessariamente na mesma direção da manufatura agregada, comprometendo a efetividade das políticas que se baseiam em diagnósticos da manufatura tratada de forma homogênea. Além disso, há consequências distintas se a desindustrialização concentra-se nos setores intensivos em ciência e tecnologia ou em setores intensivos em trabalho pouco qualificado. Nesse sentido, a composição setorial manufatureira de uma economia desindustrializada importa qualitativamente para o desenvolvimento futuro.

estudo (2019) mensurou de forma inédita a participação dos setores manufatureiros no PIB brasileiro entre 1970 e 2016, a preços constantes de 2016, a partir de dados oficiais das várias edições das Contas Nacionais do IBGE (ver Gráficos 1 e 2).

Desindustrialização setorial: setores que mais perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Desindustrialização setorial: setores que menos perderam peso no PIB, 1970-2016, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

As evidências empíricas (Gráficos 1 e 2) do estudo indicam que:

  1. A maioria dos setores manufatureiros diminuíram peso no PIB a partir de algum momento do período de 1970 a 2016. No entanto, poucos setores não apresentaram tendência clara de desindustrialização ou industrialização;
  2. A desindustrialização atinge setores de menor intensidade tecnológica como vestuário, couros e calçados e o setor têxtil; neste caso, a desindustrialização é normal (e esperada) para o nível de renda per capita atingido pelo Brasil. Esses setores atingem o pico no PIB no nível de renda per capita baixo (inferior a US$ 8.000 em Paridade Poder de Compra de 2016) do qual o Brasil já superou.
  3. No entanto, a desindustrialização atinge setores de maior intensidade tecnológica como máquinas e equipamentos, química e petroquímica, e automobilística e outros equipamentos de transporte; neste caso, a desindustrialização é prematura (e indesejada), pois espera-se que estes setores reduzam peso no PIB apenas quando o país atinja um nível de renda per capita elevado (superior a US$ 18.000 em PPC de 2016) do qual o Brasil está bem distante. Era para esses setores de maior intensidade tecnológica estarem em plena trajetória de industrialização e elevarem seu peso no PIB durante o estágio intermediário de renda per capita que o Brasil se encontra.
  4. Os setores começaram a perder participação no PIB em anos distintos da manufatura agregada. Vestuário, couros e calçados e o setor têxtil começaram a perder participação desde início da década de 1970; máquinas e equipamentos desde meados da década de 1970; metalurgia e produtos de metal, e minerais não-metálicos desde início da década de 1980; química e petroquímica desde meados dos anos 1980; alimentos, bebidas e fumo desde meados de 2005. Dessa maneira, a desindustrialização brasileira não teve início em todos os setores no mesmo período.
  5. A desindustrialização setorial também não é homogênea quanto à sua intensidade, por exemplo, vestuário, couros e calçados registraram uma desindustrialização muito mais intensa que minerais não-metálicos.
  6. A desindustrialização também é concentrada setorialmente, pois metade dos setores manufatureiros foram responsáveis por mais de quatro quintos da perda de participação da manufatura no PIB, de ponta a ponta, entre 1970 e 2016.

Em síntese, os Gráficos mostram que a desindustrialização ocorre de modo heterogêneo entre os setores da indústria de transformação, sendo, portanto, específica ao setor manufatureiro. A abordagem setorial traz novas evidências para o debate atual, sobretudo quanto à qualidade da desindustrialização, uma vez que ela é normal apenas para os setores intensivos em trabalho pouco qualificado e prematura (e indesejada) para alguns setores intensivos em ciência e tecnologia que são mais elásticos à renda. Esses últimos setores tendem a ter maior crescimento da demanda doméstica no futuro, empregam mão de obra qualificada e contribuem proporcionalmente mais para o desenvolvimento tecnológico. Portanto, da perspectiva tecnológica, a prematura mudança estrutural rumo aos serviços pouco intensivos em tecnologia tem implicações relevantes quanto ao progresso tecnológico futuro do Brasil.

Os resultados documentados no estudo (2019) sustentam o uso de políticas industriais focalizadas em setores manufatureiros que ainda tenham grande possibilidade de expansão dado o nível de renda per capita do Brasil. Por isso, há necessidade das políticas futuras distingui-los a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrar-se em políticas macroeconômicas como defendem os novos-desenvolvimentistas.

As políticas poderiam atuar em duas direções: ativas e defensivas. As ativas deveriam fomentar os setores intensivos em tecnologia e em conhecimento que ainda terão grande crescimento da demanda doméstica dado o atual nível intermediário da renda per capita brasileira, sobretudo aqueles que já se desindustrializam prematuramente. Esses setores podem retardar a desindustrialização, permitindo que nesse período a renda per capita doméstica alcance um patamar elevado. As políticas defensivas buscariam diminuir a intensidade da desindustrialização normal dos setores decadentes, por exemplo, ao conceder incentivos para os setores intensivos em trabalho se deslocarem para regiões de baixos salários. Dessa forma, as políticas defensivas contribuiriam para não agravar a já elevada taxa de desemprego do Brasil.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Deindustrialization reaches low and high technology sectors