Pico da industrialização brasileira e períodos de desindustrialização intensa

Após o pico da industrialização brasileira em 1980 houve dois períodos de desindustrialização intensa, que foram intermediados por um breve momento de manutenção da parcela manufatureira no PIB entre 2000 e 2008. A indústria de transformação não aumentou sua participação no PIB nem no momento mais favorável à sua expansão na primeira década dos 2000’s, período em que houve grande crescimento da demanda doméstica (boom do crédito e do emprego formal, e aumento real do salário mínimo) por bens manufaturados. Certamente, o vazamento de demanda para o exterior na forma de aumento das importações é outra faceta dessa questão. A experiência recente mostrou que políticas que estimulam apenas a demanda agregada não serão suficientes para revitalizar o setor industrial brasileiro, embora sejam imprescindíveis no momento tamanha a ociosidade deste setor.

Pico e qualidade da industrialização brasileira: o auge da industrialização brasileira foi em 1980. Até este ano, o produto manufatureiro real expandiu-se a taxas elevadas. Entre 1947 e 1980, o PIB manufatureiro real multiplicou-se 15 vezes. Ao encerrar o ciclo de industrialização, durante o II PND houve implantação e expansão de segmentos industriais relevantes à matriz de produção doméstica, especialmente de bens intermediários (metalurgia dos não ferrosos, química, petroquímica, fertilizantes, papel e celulose, siderurgia e cimento) e bens de capital (equipamentos de transporte, máquinas e equipamentos mecânicos, elétricos e de comunicações). A industrialização ocorrida até 1980 foi no sentido de implantar setores ausentes e enraizar localmente a produção de insumos e componentes dos setores instalados. O Brasil passou a fabricar produtos e insumos intermediários de praticamente todos os segmentos existentes nos países de industrialização madura, mas não os produzia com a mesma eficiência porque a indústria doméstica era muito protegida, o desenvolvimento tecnológico era fraco e o coeficiente de exportação baixo. O desempenho exportador e a geração de tecnologia pelas empresas brasileiras eram incipientes comparativamente aos países de industrialização madura (Estados Unidos, Japão e Alemanha). Nesse sentido, foi uma industrialização parcial e de qualidade inferior.

Industrialização e desindustrialização do Brasil, 1948 a 2018, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Períodos de desindustrialização intensa: houve dois períodos de desindustrialização intensa (ver Gráfico). O primeiro, de 1981 a 1999, iniciado com a crise da dívida externa, intermediado com a remoção da proteção pela abertura comercial e finalizado com a reestruturação industrial num ambiente com câmbio sobrevalorizado e juros elevados. O segundo período de 2009 até 2017, inicia-se com a crise internacional de setembro/2008 e seus efeitos imediatos no comércio internacional e nas decisões de investimento, e continuou com a crise político-econômica brasileira após a eleição de 2014, que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nas incertezas políticas desde então.

Nem industrialização nem desindustrialização (2000-2008): entre esses dois períodos de desindustrialização intensa houve um momento favorável a expansão industrial. No entanto, a parcela da manufatura no PIB manteve-se estável entre 2000 e 2008. Note que nem mesmo no período mais favorável ao crescimento industrial desde a década de 1970, em que a demanda por produtos industriais cresceu acima da demanda total, a manufatura aumentou participação no PIB. Um estudo (ver versão resumida publicada em inglês aqui) mostrou que a partir de meados dos anos 2000 ocorreu um significativo vazamento de demanda para o exterior. Apesar de haver demanda robusta nos anos 2000, cerca de 40% dela vazou para o exterior na forma de importações porque a indústria brasileira perdeu competitividade no mercado doméstico para os produtos importados. Isso coloca em dúvida se apenas medidas que estimulem a demanda agregada – como as dos Governos Lula – sejam suficientes para revitalizar a indústria doméstica.

Estudo completo sobre desindustrialização aqui.

Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Peak of Brazilian industrialization and periods of intense deindustrialization

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