A complexidade estrutural como uma rede de interdependências setoriais

Uma economia moderna é caracterizada por uma rede de setores ou unidades produtivas intrinsecamente ligadas entre si, dependendo crescentemente de insumos intermediários fornecidos por vários setores da economia. A complexidade de uma economia pode ser considerada conceitualmente como o resultado do processo de desenvolvimento que amplia a multiplicidade de interações econômicas dentro do sistema. Essa perspectiva guarda estreita relação com as análises desenvolvidas por autores estruturalistas, como Albert Hirschman, Hollis Chenery, Celso Furtado e Arthur Lewis, por exemplo. Para esses autores, o que caracterizaria o processo de desenvolvimento dos países seria o aumento das interações que ocorrem entre os setores produtivos de uma economia. Em outras palavras, o desenvolvimento econômico seria acompanhado por um aprofundamento na intensidade das interações entre os setores produtivos, e não apenas a alocação de recursos entre esses setores ou a exportação de produtos de alta intensidade tecnológica.

Ao mesmo tempo em que a estrutura produtiva se torna mais complexa do ponto de vista das interdependências setoriais, ocorrem mudanças estruturais nessas economias. A indústria e os serviços ganham uma relevância cada vez maior no produto interno bruto em detrimento das atividades primárias; na pauta exportadora adquire um maior peso os bens manufaturados mais sofisticados do ponto de vista tecnológico; na estrutura da demanda interna ganham maior relevância produtos importados também mais sofisticados. Para os autores estruturalistas, a complexidade estrutural, entendida como um maior nível de interdependência entre os setores seria uma condição necessária, embora não suficiente, para uma transformação na pauta de exportações na direção de bens mais sofisticados tecnologicamente.

O gráfico acima mostra a evolução do índice de complexidade estrutural da economia brasileira entre 2000 e 2014, com base nas matrizes de insumo-produto elaboradas pelo Grupo de Indústria e Competitividade (IE-UFRJ). Como podemos observar, a estrutura produtiva brasileira tornou-se menos complexa nesse período. Isso significa dizer que os circuitos de demanda e oferta de bens intermediários passou a ser atendida de forma crescente por insumos importados. Os resultados são convergentes com uma ampla literatura nacional que aponta para a ocorrência de uma perda de densidade do tecido industrial brasileiro desde a década de 1990. Entre os fatores apontados estão o câmbio valorizado por longos períodos, aumentando a importação de insumos importados, e a falta de uma política industrial e de inovação coerente entre os diversos governos.

Ver mais sobre esse assunto em:

COSTA, K. V. Entre similaridades e diferenças nos padrões de comércio exterior e de estrutura produtiva do Brasil e do México: uma análise multissetorial a partir de matrizes de insumo-produto, 2017. 245 f. Tese (Doutorado em Economia) – Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

COSTA, K.V.; CASTILHO, M.; PUCHET, M. Productive structure and the linkage effects in the era of global value chains: na input-output analysis. Revue d’Économie Industrielle, n. 163, n.3, pp. 147-186, 2018.

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Indústria atinge menor nível histórico: 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019

Participação da Indústria de Transformação no PIB, Brasil, 1996 a 2019, trimestral, preços correntes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

A desindustrialização brasileira avança em 2019. A parcela da indústria de transformação contribuiu com apenas 10,4% para a formação do PIB no primeiro trimestre de 2019. Esta é a menor contribuição industrial na série com a metodologia atual do IBGE, divulgada com dados comparáveis desde 1995.

A parcela da manufatura diminuiu de 11,0% para 10,4% do PIB no 1º Tri de 2019, comparativamente ao 1º Tri de 2018.

O maior percentual obtido foi em 1986, ano em que a manufatura representou 27,3% do PIB na série a preços correntes comparável a metodologia atual do IBGE (Ver post).

Quando se observa a participação da manufatura no PIB a preços constantes do 1º Trimestre de 2019, com ajuste sazonal, a tendência também é de queda (Ver segundo Gráfico). Isso significa que a indústria de transformação tem crescido abaixo do PIB brasileiro, que também cresceu pouco – sobretudo a partir de 2009 quando há uma intensificação da desindustrialização.

Participação da Indústria de Transformação no PIB, Brasil, 1996 a 2019, trimestral, preços constantes, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Várias são as causas da desindustrialização que tem se acumulado ao longo dos anos. Na minha entrevista que concedi à TV USP nesta semana abordei uma das principais causas: a fragilidade da indústria brasileira em concorrer na economia doméstica e mundial (exportação) porque inova pouco. A industrialização brasileira – voltada para o mercado interno – não teve uma política industrial bem-sucedida focada na inovação e na exportação, pilares do desenvolvimento bem-sucedido, como tiveram os países desenvolvidos e os países asiáticos mais dinâmicos (Japão, Coreia do Sul e China).

E, desde a década de 1980, não há qualquer planejamento econômico que tenha como foco a transformação estrutural, pois os grandes temas que dominam a ordem do dia desde 1980 são relacionados à Macroeconomia. Questões mais qualitativas e estratégicas para o desenvolvimento são deixadas em segundo plano ou até terceiro plano.

O Brasil está ficando cada vez mais para trás e sua indústria vem perdendo peso no PIB, especialmente a indústria de média-alta e alta-tecnologia. Os setores tecnológicos são extremamente relevantes para elevar a renda per capita no estágio intermediário-baixo de desenvolvimento, onde o Brasil se encontra (ver post sobre desindustrialização setorial). 

Educação de qualidade e investimentos maciços em ciência e tecnologia são os guias seguros para um futuro próspero. A indústria e os serviços de informação, como softwares, são os viabilizadores por desenvolver e difundir a tecnologia e a inovação, além de empregarem mão de obra qualificada que remuneram bem.

Produtividade ou composição setorial importa mais?

Produtividade ou composição setorial, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Há um debate crescente entre economistas de matrizes teóricas distintas. Para alguns a composição setorial é relevante para o crescimento / desenvolvimento. Para outros é apenas a produtividade.

Neste post desenvolve-se o argumento que os dois são importantes, mas a contribuição varia conforme o estágio do desenvolvimento.

Considerarei apenas a produtividade do trabalho, não a total dos fatores, por motivo de simplificação.

Suponha uma economia composta por 3 setores para facilitar a exposição. Nesta economia o Produto Interno Bruto (PIB) seria a soma dos produtos setoriais 1, 2 e 3:

PIB = PIB1 + PIB2 + PIB3

Dividindo ambos os lados pelo número de trabalhadores:

PIB/N + PIB1/N1 + PIB2/N2 + PIB3/N3, sendo N os trabalhadores de toda a economia igual:

N = N1 + N2 + N3.

Então como se aumenta a produtividade desta economia?

  1. Aumentando a produtividade de todos os setores da economia.
  2. Aumentando o peso dos setores de maior produtividade da economia.

Exemplos do primeiro caso: intensificação da mecanização (aprofundamento do capital ou aumento investimento em capital fixo); maior desenvolvimento tecnológico; melhores práticas de gestão; e melhoria do capital humano.

Exemplo do segundo caso: a industrialização absorve trabalhadores de baixa produtividade do setor agrícola nos estágios iniciais do desenvolvimento, como nos casos dos países pioneiros na industrialização do século XIX e primeira metade do século XX e da China nas últimas décadas.

Então, quem é mais importante: composição setorial ou produtividade?

Primeiro os dois são importantes. A composição setorial é mais contributiva nos estágios iniciais do desenvolvimento e a produtividade é relevante em todos os estágios, sobretudo nos estágios finais.

O que são estágios de desenvolvimento? Novamente, para facilitar a exposição, considere o PIB per capita em Paridade Poder de Compra (PPC) de 2019 como proxy. Estágios:

  • Inicial: até US$ 10 mil.
  • Intermediário-baixo: US$ 10 a 20 mil.
  • Intermediário-alto: US$ 20 a 30 mil.
  • Elevado: acima de US$ 30 mil.

Nos 2 primeiros estágios a composição setorial é muito relevante, sobretudo no primeiro. A produtividade torna-se mais importante à medida que vai avançado o estágio de desenvolvimento, sobretudo nos estágios finais, pois a economia torna-se mais intensiva em conhecimento e inovação que requer habilidades produtivas especializadas.

Desenvolvimento difere ao longo do tempo

Certamente, no passado, a composição setorial teve um papel relativamente maior que atualmente porque a industrialização era mais intensiva em trabalho. Hoje, a indústria absorve menos trabalhadores que no passado devido à elevada intensificação das tecnologias poupadoras de mão de obra (radicalização da mecanização). Mas também é verdade que nas últimas décadas surgiram novos setores que possuem elevada produtividade e ainda tem capacidade de absorver porções significativas de mão de obra, como os serviços de informação sofisticados (digo sofisticados para diferenciá-los dos call-centers).

Para fechar deixo uma pergunta: qual contribuição exata de cada fator – composição setorial e produtividade – em cada estágio do desenvolvimento? Isso está por ser feito.

Autor: Paulo Morceiro

 

 

Distância do Brasil da fronteira tecnológica setorial

Fronteira tecnológica setorial e a posição do Brasil, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado.jpg

Os setores produtivos do Brasil estão muito distantes da fronteira tecnológica setorial? Este post explora esse assunto ao utilizar como fronteira tecnológica setorial a intensidade em P&D dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A OCDE reúne os países mais avançados tecnologicamente do planeta.

A intensidade em P&D é uma razão obtida a partir dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) sobre o Produto Interno Bruto (PIB) a preços básicos. O Gráfico acima exibe a intensidade em P&D do Brasil, dos países da OCDE e a distância do Brasil em relação à OCDE – esta última é exibida na coluna ao lado direto em cor amarela. A desagregação setorial do Gráfico segue a mesma da nova classificação de intensidade tecnológica a OCDE já abordada em post anterior.

O Brasil está distante da intensidade em P&D da OCDE na maioria dos setores da economia, sejam eles muito ou pouco intensivos em P&D (ver gráfico acima).

No entanto, há algumas exceções.

  • O setor químico brasileiro é o único de média-alta intensidade em P&D que está à frente da OCDE, em grande medida devido ao desempenho do segmento limpeza, cosméticos/perfumaria e higiene pessoal que investiu 10,1% do PIB em P&D. 
  • Em outros quatro setores de menor intensidade em P&D o Brasil está à frente da OCDE, a saber: eletricidade, gás, água, esgoto e limpeza urbana; indústria extrativa; agropecuária; e metalurgia. Nos três primeiros, a P&D realizada por institutos públicos de pesquisa desempenha um peso significativo. Quanto ao setor metalúrgico, o país investiu 4,63% do PIB em P&D no segmento metalurgia de metais não ferrosos e fundição, percentual 2,2 vezes superior à respectiva intensidade em P&D da fronteira tecnológica.

Vale mencionar que os setores mais tecnológicos da OCDE,  sejam eles manufatureiros ou não manufatureiros, têm um peso maior na composição da estrutura produtiva que no Brasil, assim como contribuem mais para o desenvolvimento tecnológico. Para exemplificar, a indústria farmacêutica e o setor produtor de equipamentos de informática, eletrônicos e produtos óticos investem em P&D cerca de um quarto do PIB, enquanto no Brasil esses setores investiram percentual bem menor, conforme o Gráfico.

Embora a economia brasileira possua estrutura produtiva diferente das principais economias desenvolvidas, os setores que apresentaram as maiores intensidades em P&D no Brasil são praticamente os mesmos da OCDE, mas em proporções menores. Os oito setores líderes em P&D do Brasil exibidos no Gráfico pertencem aos grupos de alta e média-alta intensidade em P&D da OCDE.

Apenas o setor de desenvolvimento de sistemas e outros serviços de informação, que seria classificado como média-alta intensidade em P&D pela OCDE, não está entre os setores líderes no Brasil. Este setor inclui os softwares, segmento mais importante dentre o setor de serviços em montante investido em P&D e em intensidade de P&D. Atualmente, o desenvolvimento de software é o quarto que mais investe em P&D no planeta, ficando atrás apenas da indústria de informática e eletrônica, da farmacêutica e da automobilística. Embora tenha um peso expressivo na economia mundial, no Brasil esse setor está muito distante da fronteira tecnológica e faz pouca P&D em montante absoluto e em percentual do PIB.

Nota-se que poucos setores de serviços estão presentes no Gráfico. No Brasil, a maioria dos setores de serviços faz pouca P&D e em menor intensidade que a OCDE. Na verdade, é uma característica estrutural de grande parte dos setores de serviços registrar pouco investimento em P&D, uma vez que eles dependem menos dos laboratórios de pesquisa comparativamente à manufatura para manterem-se competitivos. Em geral, para os serviços, outras atividades são mais importantes que a P&D, como a implementação de novas técnicas de gestão, novas estratégias de marketing, treinamento, mudanças na organização do trabalho e aquisição de máquinas e softwares. Ademais, cabe registrar que há um predomínio de firmas pequenas e muita atividade informal em segmentos relevantes – por exemplo, comércio; alojamento e alimentação; e serviços pessoais –, especialmente nos países em desenvolvimento. Assim, a atividade de P&D na maioria dos serviços ainda é pequena.

Em síntese, o Brasil está distante da fronteira tecnológica setorial na maioria dos setores produtivos, sejam eles tecnológicos ou não. No entanto, o Brasil se destaca nos setores intensivos em recursos naturais como agropecuária, indústria extrativa e metalurgia, além do setor químico (que possui o segmento de químicos orgânicos em que uma parte também depende do processamento de recursos naturais).

Além disso, a mudança estrutural, da indústria para os serviços, que tem ocorrido na economia brasileira nas últimas décadas tem consequências negativas para o desenvolvimento tecnológico futuro do Brasil, pois os setores de serviços – que ganharam peso no PIB brasileiro nesse período – possuem baixíssima intensidade em P&D.

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Trabalhos acadêmicos sobre o assunto:

1) Nova Classificação de Intensidade Tecnológica da OCDE e a Posição do Brasil

2) Capítulo 4 da Tese de Doutorado.

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Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Distance from Brazil of the sectoral technological frontier

Cooperação para inovar leva a esforço inovativo de maior qualidade

Distribuição das atividades inovativas no Brasil, 2012-2014, Milene Tessarin, Blog Valor Adicionado

Este post continua o tema tratado no post anterior. O Gráfico acima exibe a distribuição das atividades inovativas das empresas brasileiras da indústria de transformação por origem do capital controlador e por relação de cooperação para inovar. Na sequência há alguns comentários sobre as atividades inovativas que mais se destacaram.

Aquisição de máquinas e equipamentos (M&Es)

A aquisição de máquinas e equipamentos tem um peso muito substancial como atividade inovativa no Brasil, principalmente para as empresas que inovaram sem cooperação. Para as empresas nacionais essa atividade concentra dois terços de todos os recursos destinados à inovação (67% do total) e, no caso das empresas estrangeiras, representa 43% das atividades inovativas.

A aquisição de M&Es certamente envolve menor esforço tecnológico se comparada à inovação oriunda da atividade de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Todavia, pode-se dividi-la em dois tipos: um passivo, que permite a empresa ampliar a produtividade via instalação de máquinas modernas com poucas modificações no layout produtivo, nas áreas de estocagem e na comercialização; e outro ativo, que exige absorção de novos conhecimentos e adaptações substanciais na empresa e, no mínimo, uma assimilação tecnológica e treinamento para colocar a máquina em uso.

Deve-se ponderar que no Brasil a defasagem tecnológica do parque fabril é alta – a idade média das M&Es é de 17 anos, o dobro dos países avançados – e por isso muitas vezes a inovação é apenas uma atualização tecnológica, que é benéfica por rejuvenescer o parque industrial.

Pesquisa e Desenvolvimento

A P&D é a principal atividade inovativa realizada por empresas que cooperam para inovar.

Para as empresas nacionais que inovaram com cooperação, a P&D interna foi a atividade inovativa que mais recebeu recursos (43%), à frente da aquisição de máquinas e equipamentos (34%). De forma complementar, a aquisição de P&D desenvolvida externamente teve um peso maior nesse grupo de empresas (9%).

A diferença para as empresas estrangeiras que cooperam é que o gasto com P&D é um pouco menor (39%), mais ainda assim maior que a aquisição de M&Es (28%). Outra diferença observada a partir da origem do capital controlador foi que a aquisição de outros conhecimentos externos e os custos para introdução da inovação no mercado tiveram maior peso (juntas somaram 19% dos gastos com inovação). Nesses casos estão incluídos acordos de transferência de tecnologias via uso de licenças, patentes, know-how e outros conhecimentos técnico-científicos de terceiros.

Como uma das vantagens das multinacionais é estar presente em mercados ao redor do mundo, ela consegue auferir ganhos de escala ao licenciar tecnologias e usá-las em mais de uma filial. Em muitos casos, como pode-se ver neste ESTUDO, o que se tem é a transferência de conhecimentos desenvolvidos na matriz ou por outra empresa do grupo localizada no exterior como uma estratégia da empresa que preza pela economia de escala em seus gastos inovativos.

Para que a atividade inovativa cresça de modo sustentável e fértil, algumas questões precisam ser reforçadas. As empresas que inovam com cooperação já apresentam um esforço inovativo de maior qualidade, por isso, conforme apontado no post anterior, estimular a cooperação para inovar pode melhorar a inovação no Brasil. Quanto a origem do capital, é preciso estimular que subsidiárias de empresas multinacionais desenvolvam pesquisas que vão além da adaptação, no Brasil, de tecnologias desenvolvidas por outra empresa do grupo localizada no exterior e, quanto às nacionais, em especial as que não cooperam, é preciso persuadi-las de que a aquisição de máquinas e equipamentos precisa ser um meio para a inovação (por ex., adquirir M&Es para produzir um produto novo), e não o resultado inovativo em si.

Vale salientar, que os dados da Pesquisa de Inovação (Pintec) brasileira não permitem acompanhar o desenrolar dos resultados gerados pelas atividades inovativas individualmente, sendo assim, não é possível identificar que tipo de aprendizado e resultados foram gerados nas empresas a partir de cada atividade inovativa. O que sabemos é que o Brasil patenteia pouco.

Autora: Milene Tessarin

Title in English: Cooperation to innovate leads to innovative effort of higher quality

Inovação brasileira pode melhorar com cooperação

Empresas inovadoras e não inovadoras da indústria de transformação brasileira, Milene Tessarin, Blog Valor Adicionado

Este post faz um perfil da inovação empresarial da indústria de transformação brasileira para o período entre 2003 e 2014. Neste período, a economia brasileira presenciou um miniciclo de crescimento, no entanto, o esforço inovador manteve-se praticamente inalterado. Ver aqui o estudo completo.

No Brasil, as empresas não inovadoras representaram cerca de dois terços do total de empresas da indústria de transformação, em 2014. Este ano encerrou um miniciclo de crescimento iniciado em 2004. Contudo, no mesmo período, a proporção entre as empresas inovadoras e não inovadoras manteve-se praticamente estável, conforme o Gráfico 1. Essas informações provêm da segunda e da última edição da Pesquisa de Inovação (Pintec) do IBGE.

As empresas inovadoras, que representam um terço do total de empresas, podem ser divididas entre as que cooperaram ou não cooperaram para inovar. Em 2014, de cada 100 empresas da manufatura brasileira: 30,7 inovaram sem cooperação e apenas 5,6 inovaram com cooperação (ver Gráfico 1).

A cooperação faz com que as empresas estejam melhor preparadas para desenvolver projetos inovativos. Ela é definida como a participação ativa da empresa em projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) ou outros projetos de inovação com outra organização. A cooperação para inovar permite às partes envolvidas ampliar a base de conhecimento, acelerar a inovação, reduzir riscos e incertezas tecnológicas, acessar recursos produtivos e técnicos distantes ou indisponíveis, trocar conhecimentos e tecnologias com outros especialistas e capacitar-se para processos mais eficientes.

Apesar das empresas que não cooperaram serem a maioria esmagadora em número, em termos de receita líquida de vendas e gastos com inovação a situação muda. Em 2014, as empresas que inovaram com cooperação detiveram 46% da receita líquida de vendas do total de empresas e realizaram 62,5% dos gastos com inovação. Já as empresas que inovaram sem cooperar contribuíram com 25,2% da receita líquida de vendas e com 37,5% dos gastos inovativos da indústria brasileira (Ver Gráfico 1). Por sua vez, as empresas não inovadoras detiveram 28,8% da receita líquida de vendas. Como era esperado, quem inova e gasta mais com inovação obtém maior fatia do mercado.

Também pode-se dizer que as empresas que inovaram com cooperação representam uma ilha de excelência no universo empresarial brasileiro, pois um pequeno número de empresas possui grande fatia do mercado e investe pesado em inovação comparativamente às demais empresas do Brasil.

O Gráfico 2 exclui as empresas que não inovaram e apresenta informações apenas sobre as inovadoras – com ou sem relação de cooperação – da indústria de transformação brasileira. Nele as empresas estão divididas por origem do capital controlador e relação de cooperação para inovar.

Empresas inovadoras por origem do capital e por relação de cooperação da indústria de transformação brasileira, Milene Tessarin, Blog Valor Adicionado

A seguir, alguns comentários do Gráfico 2:

  • Origem do capital e cooperação. O crescimento de 10 pontos percentuais no número de empresas inovadoras com cooperação entre 2003 e 2014 deveu-se praticamente todo às empresas de controle nacional.
  • Empresas nacionais que cooperaram – Em 2003, 3,6% das empresas inovadoras nacionais cooperaram, e em 2014 esse número aumentou para 14,1%. Foram essas empresas que realizaram 36% dos gastos com inovação no Brasil em 2014 e detiveram 29,3% da receita líquida de vendas das empresas inovadoras. São as principais responsáveis por realizar cooperação no Brasil.
  • Empresas estrangeiras que cooperaram – Mantiveram a participação em torno de 1% no total das empresas inovadoras que cooperaram em 2003 e em 2014. Elas realizaram 26,6% dos gastos com inovação no país e 25,3% da receita líquida de vendas. Contudo, as empresas estrangeiras que cooperaram apresentaram maior porte médio em relação às demais empresas.
  •  Empresas nacionais sem cooperação – Representam a grande maioria das empresas inovadoras. Após uma redução de 15 pontos percentuais entre 2003 e 2014, elas representam mais de 80% do total de empresas inovadoras. Contudo, realizaram juntas cerca de 30% dos gastos com inovação e um quarto da receita líquida de vendas em 2014.
  • Empresas estrangeiras sem cooperação – É um grupo pequeno entre as empresas inovadoras e que teve uma redução na participação entre 2003 e 2014. Em número de empresas, são menos de 2%, diminuíram seus gastos com inovação de 11,9% para 7,6% e possuem menos de 10% da receita líquida de vendas.
  • Através desse simples perfil, nota-se que as empresas que cooperaram para inovar – sejam elas nacionais ou estrangeiras – tiveram melhores resultados econômicos (market share) e maiores esforços inovativos.

É interessante notar que a estratégia de cooperar para inovar vem sendo crescentemente adotada pelas empresas nacionais. Além do aumento no número de empresas nacionais que inovaram realizando cooperação, a parcela dos gastos destinada por elas à inovação cresceu 12 pontos percentuais entre 2003 e 2014 (Gráfico 2). Em sentido contrário, no mesmo período, as estrangeiras que cooperaram reduziram sua participação em quatro pontos percentuais.

É possível ver por essas evidências empíricas que estimular a cooperação para inovar pode melhorar o desempenho inovativo do Brasil, mais do que direcionar esforços apenas estimular a inovação de forma genérica.

Como a inovação envolve diversas atividades, dentre elas a P&D, treinamento e aquisição de máquinas e equipamentos, o tipo de atividade realizada pode também explicar o motivo de os indicadores brasileiros permanecerem inalterados durante os anos 2000. Em um próximo post – a ser divulgado nesta quinta-feira – irei mostrar que o esforço envolvido nas atividades inovativas se diferencia quando consideramos as empresas que inovam com cooperação ou sem cooperação, o que reforçará o argumento que incentivar a cooperação pode ajudar o Brasil a melhorar seus indicadores inovativos.

Autora: Milene Tessarin

Title in English: Brazilian innovation can improve with cooperation

Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial

Imagens de tecidos têxteis esgarçados, Paulo Morceiro, Blog Valor Adicionado

Este post apresenta a ideia / intuição de adensamento produtivo e de esgarçamento do tecido industrial das cadeias produtivas. Estes assuntos serão temas do Blog Valor Adicionado nos próximos meses.

Um segmento industrial está conectado, direta e indiretamente, com diversos segmentos produtivos por meio das relações de compras e vendas de matérias-primas, partes, peças, acessórios, componentes e tecnologias. Desse modo, cada segmento está vinculado a uma rede de fornecedores e subfornecedores entrelaçados entre si. Quanto mais longa a cadeia de fabricação de um produto – por exemplo, um automóvel – maior e mais densa será a teia de ligações intersetoriais. Essa rede produtiva é chamada pelos economistas de tecido industrial ou malha manufatureira. Utiliza-se neste trabalho o termo esgarçamento da indústria têxtil para transmitir a ideia de perda de densidade produtiva. Em outras palavras, se os tecidos têxteis não são usados adequadamente, com o tempo se desfiam e se desintegram, podendo inclusive causar buracos e rompimentos. Nessa situação, o tecido encontra-se esgarçado como ilustrado nas imagens acima.

Num tecido industrial adensado, os produtores domésticos comercializam a maioria dos insumos e componentes entre eles, mantendo, dessa forma, ligações intersetoriais densas. Ao crescer a demanda por um produto, desencadeia-se uma produção adicional de segmentos a ele conectados na rede produtiva, aumentando também o emprego, a massa salarial, o desenvolvimento tecnológico e a arrecadação tributária.

Além da demanda derivada decorrente das interdependências da malha produtiva, na medida em que os segmentos industriais vão se adensando eles geram: i) economias externas a la Marshall para outros segmentos, isto é, transbordamentos e ganhos sinérgicos em termos de tecnologia, mão de obra qualificada, infraestrutura logística e fornecedores especializados; ii) investimentos complementares a la Hirschman; e iii) reduz os custos de produção de produtos novos – processo de descoberta de custos de Hausmann e Rodrik – e propicia a diversificação produtiva. Logo, o esgarçamento dos segmentos industriais provoca efeitos contrários aos mencionados, além da diminuição dos encadeamentos intersetoriais.

Assim, quando se importa a maioria dos insumos e componentes, a rede produtiva fica rarefeita, esburacada ou oca como os tecidos têxteis esgarçados. Uma indústria maquiladora é um exemplo clássico dessa situação, na qual se importam praticamente todos os insumos e componentes comercializáveis, gerando emprego de montagem com salários baixos e pouca contribuição científica e tecnológica para o sistema nacional de inovação.

Há de se diferenciar baixo adensamento produtivo em estágios iniciais de industrialização daquele de economias industrializadas. De um lado, nos estágios iniciais as importações são essenciais para movimentar as plantas industriais recém-instaladas. O mesmo ocorre com a produção de aviões pela Embraer. Apesar de o Brasil produzir aviões há décadas, ele não conseguiu avançar na produção dos componentes principais como turbinas e aviônica. Dessa maneira, as importações podem gerar a condição para se ter um parque industrial. Nesse caso, as importações complementam a produção industrial por incorporar tecnologias de última geração, contribuindo para elevar a competitividade das exportações domésticas. Por outro lado, em economias industrializadas, quando um segmento produtivo muito adensado torna-se rarefeito significa que o tecido industrial deste segmento sofreu um processo esgarçamento, que pode levá-lo à desindustrialização absoluta.

Vale ressaltar que os avanços no adensamento produtivo ocasionaram industrialização em economias retardatárias ao longo dos séculos XIX e XX. O processo inverso, de retrocesso do adensamento em grau intenso pode esgarçar substantivamente o tecido produtivo e ocasionar desindustrialização relativa ou absoluta.

Os termos desadensamento produtivo, rarefação, esvaziamento, desarticulação, fragilização e desintegração, que são largamente utilizados na literatura, possuem o mesmo sentido de esgarçamento. Gosto do termo esgarçamento por ele transmitir a ideia do que vem ocorrendo em algumas cadeias produtivas brasileiras que são relevantes em termos de mão de obra qualifica e desenvolvimento tecnológico.

O adensamento produtivo na globalização atual

Antes da globalização do comércio internacional ganhar grande dimensão, isto é, antes de 1980, adensar as cadeias produtivas era visto como sucesso pelos formuladores de política. No entanto, essa visão mudou, pois hoje o comércio internacional representa parcela relevante da demanda de muitos países.

Atualmente, possuir níveis moderados ou mesmo baixos de adensamento produtivo em alguns segmentos industriais não é visto como fracasso se o país se especializar para exportar. Ou seja, a perda de densidade produtiva é compensada com aumento da produção direcionada às exportações. Assim, por um lado, o país perde capacidade manufatureira com o aumento da importação de insumos intermediários, mas, por outro lado, ganha com o aumento das exportações de produtos acabados. A Alemanha faz isso muito bem, importa bastante insumos e componentes e exporta bastante produtos acabados. No Brasil, raros casos seguem essa dinâmica, sendo a Embraer o caso bem-sucedido mais mencionado.

O capítulo 3 do estudo aplicado ao Brasil mostra que a perda de densidade produtiva em setores de alta e média-alta tecnologia não está sendo compensada com exportações. Portanto, o Brasil não se insere bem nas cadeias globais de valor, pois importa insumos intermediários para produzir produtos acabados comercializados majoritariamente no mercado interno. O país não superou o modelo de industrialização voltado para dentro, porém atualmente com maior conteúdo importado. Voltarei a esse assunto em alguns posts nos próximos meses.

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O assunto deste post foi tema de 2 reportagens do Jornal Valor Econômico:

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Autor: Paulo Morceiro

Title in English: Productive densification and productive hollowing-out process

Título en español: Proceso de densificación productiva y vaciado del tejido industrial